Crônicas Jornal de Angola


Crônicas


Crônicas que foram publicadas no Jornal de Angola, no caderno de cultura de domingo, durante 2006.  Estão escritas no português de Angola, ou pelo menos, numa aproximação a ele, para maior entendimento do público angolano. Adorei imensamente ter escrito essas crônicas; me senti numa ponte com a História, uma ponte suspensa, uma ponte eterna, cordial.



PONTE RIO-LUANDA

– E aê, mermã, certinho? – arrastou aqueles erres cariocas como um boi que arrasta um arado, fazendo sulcos no ouvido alheio.
Havia mais de dois anos que eu não ia à cidade, cujas últimas aparições na tv não animavam em nada uma ex-moradora, muito menos os turistas que trazia comigo a tiracolo. Os primeiros momentos foram caóticos, pois por si só já o é o aeroporto Antônio Carlos Jobim, e ainda mais na chegada de um vôo de Angola: são milhões de expatriados esperando, ansiosos, notícias, sorrisos, gerações antigas, gerações vindouras. O vôo, como se sabe, vem lotado, e nós os quatro somos uma gota naquele oceano de composto angobrasuca, inclusive nós mesmos tingidos da mesma tinta mesclada entre os dois países que, se já eram irmãos, agora estão ficando quase siameses.
Mas é um quase superficial. Uma das graças de se ir ao Brasil é ver o quanto é diferente de Angola. Alguns dizem dele “aquilo que Angola tem potencial para ser”. Postos no local, no entanto, desejamos simultaneamente que Angola venha a ser igual sendo bem diversa.
E é nesse paradoxo que se perfaz toda a viagem, ao observarmos os carros, a programação dos vários canais abertos de televisão, as revistas, as lojas de suco, os turistas, as bancas de jornal a cada 100 metros. Ou os churros e todos os outros doces dulcíssimos que os brasileiros tanto apreciam, o chope do Bar Lagoa, o Árabe da Lagoa, a Lagoa em si. E ainda as novidades: a nova loja de chocolates no Leblon, o novo hotel da Barra, os novos bebês que chegaram à mesma época que a minha, os novos bebês que estão para chegar.
O Rio, para quem só o conhece pela televisão, é hoje um conglomerado de favelas circundantes a um concreto bloco classe-média, à exceção da Barra da Tijuca, onde se isolam os mais endinheirados num estilo de vida inspirado em Miami. Favelas, musekes – mais um jeito de ver as diferenças semelhantes entre Brasil e Angola: favelas que compartilham com seus irmãos musekes casas feitas de papelão e outros materiais oriundos do lixo, gatos para eletricidade e água, falta de saneamento; favelas que possuem, entretanto, um repertório exclusivo de tráfico de droga, bandidos, crianças com artilharia pesada nas mãos, baile funk, adolescentes da classe média-alta que sobem o morro em busca de preencher um vazio existencial típico dos nossos tempos; tudo isso e mais... as pessoas, quase sempre nos esquecemos delas, ou só pensamos nelas enquanto problema social. Museke, por outro lado, é muitas vezes para além de si próprio; tem horas em que museke é quase tudo. Caminhando juntos, favela e museke parecem não ter fim, parecem ter em seu destino a eternidade, a imparável evolução daquela involução que nós não queremos, mas que se estica para além dos nossos desejos e poderes.
Uma outra defasagem, no entanto, é que o museke é algo que se costuma levar consigo para onde se vai. A favela, não; não hoje, em 2006. Quem descer do morro trazendo consigo a favela não se emprega em nenhum lugar. E, no Rio de Janeiro, mermão, sem emprego tu não é ninguém, sacou? E, como o emprego está em falta e os querendo se empregar são muitos... No Rio de Janeiro há toda uma horda de ninguéns, ninguéns que vemos perambulando pelas ruas, ainda em suas limpas roupas, ainda senhores de palavras educadas, ainda detentores de polidos sorrisos, ainda demonstrando alguma esperança de voltarem a ser algum alguém, salário-mínimo que seja, o dinheiro que mesmo mínimo dignifica o homem porque significa trabalho e trabalho expressa eu valho, eu tento, eu me esforço, não perco a cabeça, não viro indigente, não viro ladrão.
Na igualdade dessemelhante entre esses dois países, o museke se alarga, estende seus braços como as roupas que vemos nos prédios inacabados da cidade de Luanda, proliferam-se como os mosquitos com quem dividimos o filme no único cinema local, e alcançam-nos a todos indiscriminadamente quando adentramos nosso espaço de trabalho ou um gabinete público ou uma loja comercial. E não se rende tão cedo, pois está também no lixo das ruas, nas gasosas a toda a hora e por qualquer motivo. O museke dorme e acorda conosco.
E talvez haja aí mesmo uma lição, por fim. Em vez de sermos estrangulados por uma favela que nos vai matando em revolta contra nossa sensação de “nós” e “eles”, quem sabe em Angola, onde “eles” estão definidos dentro de “nós” neste inesgotável museke, quem sabe aqui o belo influencie o feio, e a camisinha se sobreponha ao sida, a higiene vença as doenças, a arte reduza a mediocridade, e o trabalho finalmente se imponha à gasosa.



CALENDÁRIOS

Curiosamente, na volta de minha viagem conversei com um angolano ex-morador do Brasil que se espantava em não ver carros importados de alto luxo, nas cidades brasileiras; surpreendia-se, na verdade, em ver uma classe média tão mediana em posses, saberes e aspirações. Assombrava-se, por fim, por o brasileiro não cobiçar ardentemente a riqueza – não por não querê-la, mas por jamais poder alcançá-la. Tal observação nos traz de volta a um tema nosso: Brasil e Angola, análogos no abismo social entre ricos e pobres, díspares no acesso à opulência.
No Brasil, reparei bem agora, quase tudo é feito para a classe média. O layout dos bancos, os shopping centers, a relação entre custo/número de minutos dos cartões de recarga dos telefones celulares, as variadíssimas opções de pagamento de quaisquer produtos, as cores da moda e a moda em si, para não mencionar a televisão.
Os problemas mais difundidos pelos mídia também são classe-média, e são enfatizados de acordo com os meses do ano: Janeiro, matrículas e materiais escolares, além do pagamento de taxas como imposto predial, imposto do carro, taxa do lixo; Fevereiro, o carnaval em diversas regiões do país; Março, o início real do ano, com os índices econômicos comparados aos do ano passado; Abril, a Páscoa, aquela festa em que se fabricam e se compram ovos de chocolate, e também a entrega do imposto de renda; Maio, mês das Mães, o assunto é a compra dos presentes e o almoço nos restaurantes; Junho, mês dos Namorados, com preocupações iguais às do mês anterior; Julho, férias de inverno das crianças, mesmo onde só há uma chuvinha; Agosto, mês dos Pais, semelhante ao das Mães; Setembro, mês da Independência do Brasil, francamente menos importante que todos os outros; Outubro, mês das Crianças e dos Professores, significando menos aulas nas escolas, e para os católicos religiosos, mês da santa padroeira do país, Nossa Senhora de Aparecida, atraindo multidões à sua basílica; Novembro, comemoração da República, seria fraco como Setembro, mas como vem antes do apoteótico Dezembro, é o verdadeiro mês da “anunciação”; Dezembro, nem é preciso dizer, Natal e Ano-Novo: presentes, 13o. salário que vai embora antes de chegar, festa de fim-de-ano de arromba, roupa nova, destino paradisíaco, quem sabe férias, para acordar em Janeiro com imensa dor-de-cabeça sem saber como fazer para enfrentar o novo ano que já se inicia com dívidas do anterior...
O calendário dos muito ricos, só posso imaginar que, embora enfrente as mesmas comemorações, são acrescidos de outras coisas bem mais palatáveis, como as inaugurações de museus, teatros, restaurantes, festas beneficentes, fundações beneméritas, ou outras mais próprias, como criações de bancos, fusões empresariais megamilionárias, talvez estréias de rodovias gigantescas; todos esses são eventos em que se poderá contar com a presença dos mais abastados, pelo menos assim imaginamos nós, os da classe média, não sabemos bem, não somos convidados.
Os pobres não têm nada disso, claro, seu calendário é bem outro. Quer dizer, têm as contas todas acima e as festividades mais comuns e corriqueiras, mas com o triplo de chatices: Janeiro, por exemplo, é o mês de se passar dias em intermináveis filas para tentar uma vaga na escola pública para o filho, e sair delas muitas vezes fracassado, e desesperar-se por não ver o filho matriculado este ano. Fevereiro será  mais democrático, pois carnaval há mesmo em qualquer lugar, e também à borla. Março não representa nada, os pobres empregados já estavam trabalhando e os desempregados permanecerão em seu lastimável estado, apenas para constar nas sondagens do ano que vem. Abril, imposto de renda para todos, ovos de chocolate nem por isso. Maio, mãe é mãe, não se discute. Junho, talvez um beijo mais carinhoso no namorado. Julho, férias, bem, 2 dias de viagem para ir 2 dias para voltar num autocarro para o Nordeste não compensa por menos de 45 dias; melhor ficar em casa, gasta-se menos. Agosto, pai é pai, mas homem não fica sentido se não ganhar presente. Setembro são só as contas normais, é hora de reparar quanto a inflação comeu do valor real do real. Outubro, mês das crianças, espera um pouquinho que o Natal está chegando. Novembro é tentar ir juntando para os gastos de Dezembro. Dezembro, vamos ver se conseguimos pelo menos assar um franguinho; quem sabe até dá para fazer um churrasco com o 13o.? Vamos já comprar uma grade de cerveja para o Ano-Novo.
E tem o calendário dos miseráveis: Primavera e Verão: discussão com a assistente social sobre ficar ou não no abrigo, aceitação do sopão, dormir na rua. Outono: novas conversas com a assistente social, fotos para a campanha do agasalho, sopão, dormir na rua. Inverno: recolha obrigatória dos mendigos para o abrigo, sopão, fuga para a rua, morte pelo frio.
Neste ano de 2006, compulsório para todos: Mundial em Junho, eleições em Outubro. Deus nos abençôe.


COMEREI DA ALFACE A VERDE PÉTALA

Vinícius de Moraes tem um soneto que começa assim: “Não comerei da alface a verde pétala/nem da cenoura as hóstias desbotadas/deixarei as pastagens às manadas/e a quem mais aprouver fazer dieta.”
Pois do que mais sinto falta da minha terra natal em Luanda é justamente os legumes e verduras, por mais engraçado que pareça. Sempre que volto ao Brasil procuro logo me empanturrar de rúcula. Quando acho que já comi o suficiente, lembro-me que só vou voltar a vê-la daqui a muito tempo, e aí começo a pensar em pedi-la já desde o pequeno-almoço. Do género “recarregar as baterias”, sabe?
Outro campeão de bilheteiras é o manjericão, que eu até plantei no meu jardim aqui, mas que, graças ao meu jardineiro – qualquer dia tenho que lhes falar dele, não me deixem esquecer, ele  é mesmo imperdível – não estão mais conseguindo florescer, de maneiras que temos que comprar a preços exorbitantes em alguns supermercados estrangeirizantes. Mas compramos, porque ficar sem manjericão é que não podemos.
Também as frutas fazem muita falta: na primeira vez em que vim a Luanda, pedia a um meu conhecido dono de restaurante que me oferecesse um sumo de alguma fruta diferente, ao que ele dizia “não há nada diferente aqui” e eu contestava “não é possível” e ele “maracujá” e eu com vontade de responder “a patente do maracujá é brasileira, meu caro, quero algo que não conheça” e só depois de muito tempo é que vim a saber que existe, sim, uma fruta exclusiva, angolana, muito saborosa e de difícil acesso e por isso mesmo cara: o maboque.
Ainda não fomos apresentados. Se for bom como dizem, tenho certeza de que vamos nos adorar. Como será seu gosto? Eu já o vi uma vez – aliás foi um episódio memorável: íamos num passeio à Barra do Kwanza e havia na beira da estrada uma família que o vendia. Ao saber que aquelas frutas eram o tão decantado maboque, entusiasmei-me e paramos o carro prontos para nos deliciarmos. Encarregadas da negociação estavam crianças, a quem perguntamos sobre o preço da fruta. Sua resposta, no entanto, revelava no mínimo um péssimo instinto comercial, pois nos diziam entre risos: “esse maboque não presta, está mau” e, por causa do ar zombeteiro, não sabíamos se falavam ou não a verdade. Após inúmeras tentativas de entendimento tiveram que chamar uma mais velha. Esta, ao se encaminhar em nossa direcção estava entretanto tão bêbada que caiu sentada no chão, para deleite dos miúdos. O clima já conturbado de comércio terminou por se desfazer, e tivemos que desistir do mágico encontro que teria acontecido entre mim e maboque, maboque e eu, com imensa frustração gastronómica mas, confesso, divertidíssimos com todo o acontecimento.
Mas minha vida aqui não tem sido só decepção do ponto de vista legu-verdurífero;  uma das maiores surpresas foi a batata-doce, que eu não comia no Brasil, embora seja um alimento muito típico do Nordeste, região de onde venho. A daqui, entretanto, revelou-se infinitamente mais rica, saborosa, e, se junto de um cacusso e de um bom feijão ao óleo de palma, é capaz de levar às lágrimas até o coração mais enrijecido pelas brutalidades da existência. Sempre que como batata-doce, peço perdão a Deus e a mim mesma pelos anos em que me recusei a comê-la, no Brasil. E imagino o que seria de meus conterrâneos se a descobrissem: haveria um êxodo em massa, directamente do Nordeste brasileiro para cá, o que seria bom, pois encheria um pouco a terra imediatamente desenvolvendo a agricultura. O único cuidado seria o de não permitir a monocultura, que erode o solo além de tornar qualquer iguaria enjoativa. 
Contudo, como em todo o universo há uma hierarquia, também no mundo das folhas comestíveis é assim, e a rainha soberana é a bertalha. Sei que muitos de vocês estarão lendo esse nome pela primeira vez, e imagino até que os mais curiosos o anotarão para, em sua próxima viagem ao Brasil requererem o acepipe no primeiro restaurante; todavia, não aconselho tal prática, pois quase ninguém conhece essa verdura, e só a encontramos às vezes e em alguns mercados, sendo que até mesmo o seu nome varia de estado para estado.
Mas enfim, a bertalha é qualquer coisa de espectacular. Começaria por dizer que, além do sabor ser maravilhoso, ela dispõe de um recurso por mim nunca dantes navegado no mundo das comidas: o cheiro do gosto. Tentarei explicar-me, sem promessas de sucesso: quando vem o prato quentinho, aquele refogadinho simples, normal com que se faz um espinafre ou uma couve, a bertalha exala um cheiro muito bom. Posta na boca, o gosto nos remete a um cheiro diferente, que por sua vez transforma o gosto em algo sublime, muito acima das capacidades normais de um vegetal. A mim, me parece que estou fazendo uma viagem directo à Maceió, minha terra natal. Será uma planta alucinogénica?, perguntar-se-ão vocês. Ora, é sabido que a língua humana é pobre em decifrares, distinguindo apenas as temperaturas e o quadrinómio doce-salgado-amargo-azedo. Todo o restante é trabalho do olfacto, exceptuando-se a parte relacionada com o tamanho da fome, que pode transformar qualquer porcaria em manjar dos deuses. Mas é o olfacto quem traz noções como “bom”, “delicado”, “exótico” ou “sublime”. O que eu digo é que a bertalha tem um cheiro fora e outro diferente, mais intenso, mais mágico, religioso, eu diria, dentro da boca, compreendem?
Não, não compreendem. É preciso passar pela experiência para saber. E esse nirvana gastronómico não é para todos, claro. Por exemplo, aqueles dentre vocês que não crêem no que eu digo, provavelmente nunca terão esse conhecimento. Pois, como com outras experiências espirituais, não somos nós que vamos ao encontro da bertalha; é ela quem vem a nós. A nós, os merecedores.


FERMENTAÇÕES

    “Eu bebo, sim, e estou vivendo/tem gente que não bebe e está morrendo...” [Velhas Virgens]
    Mais importante do que perceber de bebidas é distinguir suas respectivas carraspanas. Diz a lenda que ali na finada Escola Oito (xinguilemos, a morte de uma escola é um mais que justo motivo para se xinguilar) havia uma professora, Ermelinda Weltanshauung, que passou a ser assim conhecida após se amigar com um alemão de mesmo apelido, mas cujo nome de família era Ermelinda Disuyujika, sendo entretanto chamada pelos alunos de P’sora Linda. Enfim, P’sora Linda aparecia todas as segundas-feiras com o olho esquerdo fechado, curioso, olho esse que ia se recuperando ao longo da semana e, mais curioso, na sexta-feira atingia o auge de sua abertura.
    P’sora Linda pensou primeiro em proibir perguntas, mas, ao dar-se conta da inutilidade da medida, tentou escrever um parágrafo explicativo, o qual entregaria a todos os alunos e colegas. Foi dissuadida, no entanto, pois esse trabalho teria que ser feito no fim-de-semana, e isto estava fora de questão, pois no fim-de-semana tinha seus sacrossantos deveres. De qualquer forma, aos poucos todos ficaram sabendo que P’sora Linda sofria de um tipo raro de enxaqueca, que se dá por causa de uma compressão congénita do nervo ótico, causando o involuntário fechamento da pálpebra, doença incurável e hereditária, inclusive. Apesar de um pouco incómodo, não causava maiores transtornos, a não ser quando havia exames às segundas-feiras, uma vez que com um olho só não controlava bem os miúdos a tratarem de copiar uns dos outros; mas isso foi sanado ao passar os exames para as quartas-feiras.
    O pai da P’sora Linda, um eminente importador de grande estima para o país, também sofria de problema semelhante, com o agravante de alternar entre os dois olhos, ó doença cruel, e de não se recuperar totalmente na sexta-feira. Acrescente-se a isso o fato de ser um homem de constituição natural magra, mas de partes isoladas dilatadas, igualmente, ao que parece, fruto de uma degeneração qualquer que torna as bolsas sob os olhos, as bochechas, o papo e a barriga inchados. Mas nada disso o impedia de freqüentemente discorrer sobre a importância de se valorizar o produto nacional onde quer que fosse, homem de sentimentos patrióticos invejáveis.
    Eis que a escola organizou, certa ocasião, uma feira de estudos inspirada justamente, vejam vocês, numa das prelecções de domingo do não-convidado-para-discursar-mas-discursando-mesmo-assim pai da P’sora Linda, que se havia dado numa mui alegre funjada na casa de uma tia de um dos directores da escola. A ideia foi aprovada com louvor, e o mote principal não poderia ser outro: o produto nacional.
    Toda a escola foi dividida em grupos e cada qual tinha o direito de eleger o seu objecto. Muitos optaram pelo petróleo e outros tantos pelos diamantes, pelo que os professores tiveram que se concertar no sentido de abordar o mesmo tema sob aspectos distintos. Alguns escolheram a música e a dança, e dois, a arte das máscaras. Um grupo misto entre o oitavo e o nono ano seleccionou a gastronomia, mas a poucos dias do prazo acabou por preferir ficar só com a bebida, que dava menos trabalho e ainda assim já era muito.
    A feira, ocorrida num sábado pela manhã, foi um sucesso. Os grupos tinham-se empenhado bastante e os professores foram de grande ajuda. Os pais e demais visitantes estavam empolgados com o resultado, pujante, colorido. Houve uma grande comoção patriótica, pois o produto nacional estava ali valorizado por essa promissora geração de jovens que cresciam conhecendo a importância do nosso país.
    Um grupo em especial foi, aos poucos, atraindo a atenção dos visitantes, talvez pela estética com que organizou sua bancada. Havia umas estantes de madeira, todas pintadas de cor creme e assentadas sobre tijolos. Sobre elas repousavam várias garrafas transparentes contendo bebidas de cores diversas, tendo à sua frente uma plaqueta indicando o nome de cada uma. À direita, um cavalete com grandes folhas de papel explicava o processo de confecção de algumas daquelas bebidas. No canto esquerdo, havia uma destilaria tradicional em ponto pequeno para simular a fabricação. Os miúdos estavam divididos entre os que diferenciavam os conteúdos das garrafas, os que explicavam detalhes históricos segundo os desenhos e os que serviam as ponteiras da míni-destilaria para provas no momento.
    Sua experiência causou tanto interesse que nunca puderam ir visitar outras bancadas; ao contrário, os meninos de toda a  escola não queriam sair dali, nem os pais, nem os professores.
    Na segunda-feira não houve aulas, pois era necessário limpar toda a escola e só o domingo não era suficiente. Mas na terça as aulas foram retomadas, com todos ansiosos por discutir a feira. Dois professores e seis estudantes apareceram com um dos olhos fechados, afectados pelo que parecia ser a mesma enxaqueca da P’sora Linda. Diante daquele estarrecedor fenómeno, alunos mais maldosos concluíram que alguma das bebidas deveria ser a causadora daquele mal. Apesar de impreciso, o rastreamento indicou que na base do estrago ocular estava o caporroto,– aguardente fermentada em tambores de gasolina, cujas destilarias são inclusivamente proibidas pela polícia – e que, tendo vindo já pronto, era retirado na hora da destilaria-maqueta.
    P’sora Linda, que não apareceu por toda aquela semana, pediu a demissão.


O MEU MUNDIAL IDEAL

    Todas as atenções estão voltadas para o Mundial, basta abrir os olhos ou ouvidos para perceber isso claramente. É bonito ver que o mundo inteiro pode se mobilizar em torno de uma causa comum, mesmo quando ela tem por objectivo a competição, o “que vença o melhor”. Aliás, é até comovente, nem parece que aqueles ali somos nós mesmos. Onde andará nosso espírito belicista, fomentado por aquela imparável ganância que vem nos levando para frente sem nos tirar de trás? Quanto mesmo custou a reforma do estádio de Munique, 250 milhões de euros? Du-zen-tos-e-cin-quen-ta-mi-lhões, nem que fosse de zimbos, já era de impressionar qualquer um. Como é que um desporto cujo objectivo é meter uma bolinha - que pode até ser de papel – numa rede chamada golo chega a esse ponto da história económica mundial?
    Ou ainda mais inacreditável: como é que até hoje não conseguimos mobilizar nem uma pequena percentagem dessa força em prol de algo que, por exemplo, terminasse com a fome, ou transformasse a rivalidade expressa nas guerras em jogos desportivos, como sugeria a Grécia ao criar as Olimpíadas, ou impedisse os homens de exercerem violência contra as mulheres e as crianças, ou ajudasse a reconstruir os povoados destruídos pelos fenómenos naturais? Como é possível que para o futebol, tanto, para a vida real, tão pouco?
    Pois eis o meu mundial ideal:  haveria uma federação internacional não denominativa que albergaria os países que quisessem dela participar. Durante um mês por ano, os cidadãos dos países confederados se engajariam numa causa fundamental, cuja escolha seria feita por sorteio. Não seria obrigatório, como não o é o empenho na Copa do Mundo, mas sim uma questão de honra, de alegria, de pertencimento, etc.. Durante aquele mês inteiro as atenções dos países estariam voltadas inteiramente à região do mundo escolhida, para resolver o problema apontado, fosse ele fome, miséria, exclusão, cancro, sida, alfabetização, segurança, êxodo demográfico, catástrofes da natureza, racismo e outros preconceitos, enfim, o que não falta é coisa para consertar e teríamos material para muitos anos. De quatro em quatro anos haveria uma festa especial na forma de uma disputa internacional de futebol, sendo participantes os países que melhor contribuíram nos últimos quatro anos para as causas apontadas, em todos os indicadores possíveis: número de pessoas comprometidas, cobertura dos mídia, dinheiro investido, fundações beneficentes funcionando com trabalho comprovado, criatividade na solução dos problemas apontados durante aqueles quatro anos. O futebol seria, assim, uma verdadeira comemoração, a vitória do homem sobre sua capacidade de desunião e antagonismo.
    Assim como é, o futebol suscita alegria, é verdade, mas também a confirmação de que temos uma infinita capacidade de obliterar o urgente, de trocar o fundamental pelo interessante, de deixar as coisas como estão para ver como é que ficam. O futebol, esse fica cada vez mais rápido, mais técnico, mais forte, mais rico, e mais violento, também. Da mesma maneira é o resto: a tecnologia, o avanço das telecomunicações, os filmes, as carreiras meteóricas, as destruições pelos tsunamis, terramotos, maremotos. Afinal, o que estamos esperando, que fiquemos todos sem água, por exemplo, para nos darmos conta de que não é possível passar a diversão, a brincadeira, nem mesmo a alegria à frente da tristeza, da guerra, da rivalidade? Já repararam, por exemplo, que a maioria dos jogadores advém de classes sociais baixas, e que é só na hora da vitória que essa classe ganha alguma notoriedade, que as origens paupérrimas desses indivíduos interessam, que suas famílias, mesmo que vivendo com mais folga agora, tornam-se pseudo-celebridades por alguns instantes? Como será que essa gente se sente durante o resto do ano, dos anos? E quanto será que ganham os jogadores que não são superstars?
    Me parece que o futebol, a música e as artes cénicas, todos indispensáveis enquanto agentes da cultura de cada país, cada povo, estão tomando o lugar de temas cuja urgência não pode ser negada e relegada a segundo plano há muitos e muitos anos, muitos mais do que nós podemos aguentar, muitos mais do que a Terra pode aguentar. É óptimo ter toda a beleza e vivacidade da cultura artística e do desporto nos ajudando a colorir a existência, a nos revermos na vida de pessoas brilhantes, a escutar nossas próprias histórias recontadas de forma surpreendente. Mas nós não somos só isso, nossa vida não é só isso. É bem mais dura, mais feia, mais complicada, mais intrincada nas vidas de outros. O futebol nos une, mas o exagero com o qual é tratado nos separa e, se os terroristas concordarem com isso, algo de muito mau pode acontecer. E, hoje em dia, é só diante do terror que nos apercebemos do óbvio: nossas acções não correspondem à dos homens civilizados, estejam eles do lado em que estiverem.


VALORES SUBVERTIDOS

    Circulou pela net há umas semanas um artigo singular: uma carta de uma mãe brasileira dirigida a outra, esta tendo aparecido nos noticiários a reclamar por melhores condições para seu filho, detido no órgão público que recolhe menores marginais, a FEBEM. A primeira mãe, autora da carta, solidarizava-se com a segunda, dizendo entender suas dores pois também era mãe. Mas revelava-se no final como a progenitora do rapaz que foi morto pelo filho da outra num assalto. Escrevia aquela carta para chamar a atenção sobre o apoio moral que a sociedade, em especial os mídia, dava à mãe do marginal, marginalizando com isso a mãe da vítima ao deixá-la de lado. A frase de encerramento do e-mail dizia: Direitos Humanos São para Humanos Direitos.
É interessante notar que, à medida em que ficamos mais civilizados, mais abertos, mais curiosos, mais especializados, e em que trazemos as diversas discussões mais a público, menos tocamos no cerne real das coisas, e mais passamos pela tangente do ponto que deveríamos evidenciar, segundo o enunciado do nosso discurso.
    Aquela carta, aliada a alguns dos últimos espectáculos de violência no Brasil me fazem reflectir sobre os direitos humanos dos presos. Como quase nunca tocamos no assunto “criminalidade” continuamos hoje ainda sem saber o que é que faz com que uma pessoa escolha o caminho da marginalidade, especialmente quando sabe as péssimas consequências que sofrerá quando for pego. Ou pior, no caso dos meninos que viram chefões do tráfico de drogas nos morros brasileiros, provavelmente nem chegarão a ser pegos porque morrerão antes. Alguém tem notícia de um chefão com mais de 30 anos? Difícil.
Porém, o discurso social está tão invertido, que não só os mídia voltam sua atenção à mãe do marginal, dando as costas às vítimas verdadeiras, mas também já é senso comum hoje dizer-se que os policiais são corruptos porque ganham pouco e têm contacto diário com muito. Esse conceito não é suficientemente combatido, nem mesmo com a evidência de que muitas das empregadas domésticas que povoam as casas das classes média e alta também moram no morro, também têm contacto com o mundo do crime, e nem por isso cometem delitos contra nós em nossas casas, e poucas mesmo são as que levam alguma coisa. A maioria é honesta, como se sabe.
Uma rede de incoerências permeia toda a questão criminalidade/direitos dos presos. Num dos pólos está a crença de que é a falta de horizontes, a exclusão social, o ambiente doentio que “gera” um criminoso. Essa explicação é complicada porque só pode fazer sentido se eliminarmos da lâmina do laboratório os que, advindos das mesmas dificuldades, resolvem traçar o caminho oposto, isto é, dentro da lei e dos bons costumes. Também é interessante como essa corriqueira justificação retira dos criminosos a responsabilidade pelos seus actos, depositando-a sempre em factores externos que não podem controlar. Se assim realmente fosse, isso, por si só, seria motivo para mantê-los presos, pois que para viver em sociedade é necessário ter capacidade para responder pelas próprias escolhas. Além disso, são inúmeros os criminosos não oriundos de tais sistemas ambientais, como por exemplo os dos crimes de colarinho branco. Embora suas celas prisionais pareçam ter melhores condições, a paga será a mesma: falta de liberdade.
Por outro lado, este dividido em dois pólos, de que trata a luta pelos direitos dos criminosos, exactamente? a) De melhores condições de higiene, de habitação, de saúde? De menos criminalidade dentro das prisões? De mais afecto entre os companheiros? De relações hierárquicas mais justas? Ou b) De uma resposta mais rápida da Justiça, quando aplicável? De um maior acompanhamento psiquiátrico, quando aplicável? De um reencaminhamento dirigido ainda dentro da prisão, quando aplicável? De uma sociedade mais tolerante e com mais disposição para confiar num ex-presidiário? De uma recolocação no mercado de trabalho sem estigmatização?
Como se vê, a questão é altamente complexa e falta muito para que tenhamos alguma resposta satisfatória. As perguntas acima fazem-nos querer crer que, caso elas fossem sanadas, pelo menos uma boa parte dos presos estaria disposta a largar o crime, uma vez que a cadeia seria, antes de tudo, um verdadeiro reformatório, para o qual alguns poderiam até ir com uma certa alegria. Mas, será mesmo?
Permanece, assim, a dúvida de por quê alguém prefere a criminalidade, uma vez que viverá como preso até nos dias em que está livre, e com essa dúvida, outra: decidir que tipo de instituição deveria ser uma cadeia efectivamente. Afinal, um dos motivos pelos quais as pessoas de bem resolvem se manter no caminho da rectidão é justamente NÃO serem presas.
    Claro está que os presos são pessoas e, como tal, merecem o respeito e o tratamento que os humanos necessitam. No entanto, será justo enfatizar a luta por melhores prisões para que os delinquentes não vivam como ratos em sociedades onde pessoas de bem também vivem como ratos? Será que essa é a prioridade na lista dos ajustes? Afinal, ninguém NASCE na cadeia! Não seria mais justo começar a reparação pelo bem-estar do povo, que não é marginal? Permitir-lhe condições verdadeiramente humanas e dignas? Que seja antes melhor manter-se livre, fora das prisões, mas com a dignidade, o respeito E o dinheiro necessários para se levar uma vida de bem.
   

EMAGREÇA A DORMIR

    Não sei vocês, mas eu recebo diariamente na minha caixa de mensagens electrónicas uma média de 4 e-mails do tipo spam com o assunto “emagreça a dormir”. Do alto dos meus 51 quilos distribuídos em 1,67 m de ser humano, soa especialmente engraçado. Mas essas mensagens me fazem lembrar a época do “aprenda inglês a dormir”, lembram-se? É anterior à internet, e o processo, apesar de aldrabão, demonstrava pelo menos alguma engenhosidade: a pessoa adquiriria noções da língua inglesa subliminarmente ao escutar as gravações em cassetes durante o sono. Era prático, porque não precisaria dispor do seu precioso tempo de vigília para se dedicar a estudar. Quando entrasse em contacto com a língua, já acordado, faria uma espécie de “reconhecimento” automático dos termos apreendidos nas noites anteriores.
    Interessante. Mentiroso, mas interessante.
    O irmão moderno das fitas de inglês, entretanto, promete a queima de nada menos que 5 a 9 quilos de gordura por mês enquanto está a dormir. Não é uma fita cassete recheada de dizeres “eu sou magro, eu sou magro”, como a princípio pensei, mas sim cápsulas com ervas que queimam a gordura enquanto se dorme, além de promover outros milagres, como desintoxicação do organismo, músculos mais rijos, tonificação da pele, etc., etc.. Mas calma, o melhor está por vir: não é necessário fazer dieta! Tudo ficou para trás: a malta a matar-se na academia, a fazer regimes de todo o tipo... Finalmente chegaram essas ervinhas aí, que trarão todo o sucesso do mundo sem trabalho nenhum.
    Há um tempo atrás, apareceu no Brasil um médico que ficou instantaneamente famoso, por ser o preferido das actrizes de televisão, as verdadeiras especialistas em magreza por exigência do vídeo (o ecrã engorda as pessoas em mais ou menos 3 quilos). Esse médico infalível, cujo nome não revelarei não por discrição mas apenas porque não sei, receitava às suas pacientes duas pílulas branquinhas sem nenhum outro esforço. Pronto. Era o suficiente para que elas mantivessem o peso dentro dos sempre imaginários “limites aceitáveis”.
    Esse homem ficou riquíssimo, disputadíssimo, idolatrado, enfim. Tanto que levou algum tempo para que o seu poder hipnótico desse lugar a algum pensamento ligeiramente mais científico, proporcionando a dúvida óbvia: afinal, que fantásticas substâncias continham aquelas mágicas pilulazinhas?
    Após alguma análise, levada a cabo não sei por quem, descobriu-se que cada uma das pílulas continha um filhote de ténia, sabem o que é?, no Brasil chama-se lombriga, um verme que cresce enormemente no intestino e devora tudo o que você come.
    Portanto, esse método das lombriguinhas teve seus dias contados, afiguro que com alguns protestos de pessoas que achavam que o benefício era maior do que o custo.
    O que me espanta mesmo é ver a que ponto o homem é capaz de por sua imaginação para funcionar para criar soluções em que o trabalho pode ser posto de lado. Não sei de onde vem essa preguiça de trabalhar, se já no Paraíso labutava-se, ao que parece. Além disso, não conheço nenhum exemplo concreto e duradouro de sucesso sem suor, a começar pela educação dos filhos. É uma árdua tarefa, porém sem ela não se cria seres humanos normais.
    Essas soluções têm como contrapartida a criação de necessidades desnecessárias, para a posterior venda de produtos supérfluos travestidos de fundamentais. Um exemplo disso é os telemóveis. É evidente que eles são de grande ajuda para muita gente, e têm adiantado a vida dos negócios e em muitos casos até da segurança. Mas eu pergunto: para que uma criança de 10 anos, que só se movimenta com algum adulto de confiança, precisa de um? Ou ainda, para que o meu jardineiro precisa de um? Ele recebe o equivalente a 75 dólares por mês para cuidar do jardim da minha casa, que está cada vez mais destruído, aliás (o jardineiro parece só gostar de relva, a única coisa mais ou menos intacta até agora – tenho que lhes falar desse homem, qualquer dia). Para que uma pessoa que aufere esse rendimento precisa ter um telemóvel, cuja compra equivale a dois meses sem comer nem beber, e cujo “combustível” – as recargas – são também caras? Para saber se está tudo bem com a mulher e os filhos? E por que estaria mal, ou pelo menos pior do que quando não havia telemóveis? Não há explicação que me faça compreender. É uma falsa necessidade.
    Emagrecer a dormir obedece a uma categoria mais complexa de falsas necessidades. Em primeiro lugar, permitiria manter o mau hábito de comer o que não se deve e em muita quantidade, indicando que é possível melhorar sem mudar. Falso. Em segundo lugar, mesmo a decisão de emagrecer deveria advir do desejo de uma melhora do bem-estar geral da pessoa, e não de um preconceito dissimulado. Emagrecer não pode ser uma imposição sócio-cultural assim como ser gordo não pode ser fruto da negligência.
    De qualquer modo, deveria mesmo era haver um mecanismo que funcionasse para todos os meios de comunicação e no mundo inteiro, de acordo com o qual os vendedores tivessem que pedir nossa autorização para nos tentarem vender alguma coisa. Para escapar dessas vendas impostas, eu até gostaria de emagrecer a ponto de ficar invisível!


HIPOCRISIA

O Mundial acabou e eu não queria falar de futebol, pois além de não ser italiana a meu ver esse foi um campeonato ao qual faltou o principal: vida. À excepção de umas poucas selecções, a vencedora incluída, o que houve foi muito vedetismo, com treinadores com dificuldades de manejar o estrelismo de certos jogadores e por isso mesmo não conseguindo um sentido de união em campo. Criou-se um novo paradigma futebolístico: temos agora dois Ronaldos, o Fenómeno que está em nossas cabeças e corações e o novo, o Estátua que está em campo nos jogos da selecção. Temos também o Roberto Carlos veloz e fantástico de outrora e o Roberto Carlos ajeita-meias, aquele que tem vários motivos para não fazer o devia: é mais baixo que o adversário, por isso não pode disputar bolas com ele, fez o que tinha sido treinado (isto é, nada), os outros colegas tampouco avançaram porque quem tinha que avançar era a linha da frente, etc.. Ninguém jogou mal, ninguém se responsabilizou por nada. Na selecção brasileira, então, ninguém nem chorou, isso foi o mais espantoso de tudo. Mas tudo bem. É o Mundial dos duplos.
O problema do Mundial dos duplos é que ele revela-se assim o Mundial do Euros literalmente. Se pensarmos que até a relva do estádio de Berlim irá converter-se em 9 milhões de euros ao ser vendida aos quadradinhos, vemos que os objectivos do futebol mudaram a sério, infelizmente com prejuízo para o próprio, como se viu. Por isso, um conhecido meu, dono de restaurante, vaticinou desde o começo do ano: a equipa vencedora será uma equipa sem vedetas. Dito e feito. O que se viu foi uma Itália, como direi... italiana, a jogar pela sua bandeira. Meus sinceros parabéns.
Para além do vedetismo e das situações pró-Euros, viu-se mais que tudo pancadaria. Interessante notar que os milhões que aquela malta ganha não a refinaram o suficiente para que ela possa resolver suas queixinhas em campo com educação, mesmo sabendo que é exemplo para crianças do mundo inteiro. Mais curioso ainda é saber que o máximo que pode ocorrer em campo são mesmo queixinhas dignas de jardim de infância, nada mais.
O ocorrido com o Zidane é um exemplo claro disso e de muito mais. Além de ter a atitude de um touro bandarilhado, crê que desculpa-se ao dizer que sua mãe e irmã teriam sido ofendidas por Materazzi. Todos imaginamos mais ou menos o tipo de ofensa que poderia ter sido. Apenas pergunto-me: Materazzi as conhecia? Sabia se elas exerciam alguma actividade moralmente duvidosa? Explico-me: ninguém fala mal da mãe de ninguém, somente utiliza a imagem da mãe para tentar atingir o adversário. Atacar alguém por este ter malfalado a mãe do outro é o cúmulo da hipocrisia, quando vivemos numa sociedade em que o homem perpetra tanta violência contra a mulher. Pois pergunte ao Zidane se ele não já olhou de forma luxuriosa a mãe ou irmã de alguma outra pessoa, ou se não lhe disse palavras embaraçosas! Talvez até tenha tocado ou mesmo injuriado (com aquela brutalidade toda, é possível imaginar) alguma mulher. TODAS as mulheres são mães ou irmãs. Se algum homem quer defendê-las, não será com socos ou cabeçadas ou bombas contra outros homens; antes será suficiente parar de ofendê-las no seu dia-a-dia.
O Conselho da Europa atesta que a violência contra a mulher é a maior causa de morte e invalidez entre as mulheres dos 16 aos 44 anos, e que mata mais que o cancro e que a guerra. Em Portugal levanta-se nesta semana um trabalho contra a violência doméstica, que está a aumentar, em pleno século XXI. Hipocrisia.
No Brasil, os comboios agora têm cabinas separadas para homens e mulheres, isto por conta do assédio contra elas quando estavam na mesma cabina que eles. Era um festival de mãos, olhares, encontrões propositados, palavras indecentes e constrangedoras, dentre outras coisas desagradáveis. Como é que o homem que tenta aproveitar-se de uma mulher numa cabina de comboio não pensa que o mesmo pode estar a ocorrer contra sua própria mãe? Hipocrisia.
Nas guerras, uma das mais fortes marcas resultantes é a violação de mulheres,  que tem como retaliação... a violação das mulheres adversárias, todas mães e irmãs. Hipocrisia.
Em outras palavras, penso que o que o Zidane fez foi perpetuar um comportamento hipócrita para disfarçar a necessidade animalesca de machucar, de expor selvajaria, de fazer guerra. Não, Zidane, não há desculpa possível. Pior ainda é a população tê-lo “perdoado” por ele ter pedido desculpas às crianças, embora não se tenha arrependido. Agora as crianças podem ser violentas o quanto quiserem, contanto que depois peçam desculpas, e nem sequer precisam arrepender-se!
Estaremos todos a perder a capacidade de leitura crítica? Será que até nós, as mulheres, vamos abrir mais as portas para que a incivilidade de alguns homens espalhe-se pelos que estão por vir? Eu, não, Zidane, a mim não me enganas: leva teu instinto assassino para o divã do psiquiatra, tu, Bush e companhia.



TERRORISMOS

Outra coisa extremamente singular no mundo dos e-mails é o novo tipo de terrorismo que veio com os eles: não, não estou falando dos vírus, mas daquelas correntes que dizem que, se você não mandá-las imediatamente para 15 pessoas, algo terrível vai lhe acontecer, como um acidente de automóvel, falência ou a perda de entes queridos. Como comprovação, vários descrições de exemplos de casos infelizes, feitas pelo próprio autor. Ou seja, já não basta mais contar com as ameaças reais do nosso quotidiano, agora temos que aturar também ameaças virtuais!
Gostaria de saber o que é que se passa na cabeça do indivíduo que inventou isso. Será que ele pensa que sua corrente é uma espécie de obra de arte, e que o e-mail é seu meio de comunicação? Então, para evitar uma negativa do público à apreciação de sua obra, ameaça-o com os mais diversos reveses. Permitam-me transportar essa hipótese para outra cena, digamos assim, uma galeria de arte. O artista contrataria uma série de bandidos armados até os dentes, mas que estariam posicionados escondidos do público. Quando este estivesse dentro da galeria, aqueles apareceriam, coagindo as pessoas a comprarem as obras, os críticos a rasgarem-se em elogios, os curadores a estalarem-se por serem os primeiros a reproduzir a exposição.
    Isso, claro, supondo-se que o criador do e-mail terrorista se acreditasse um artista. Pode ser outra coisa, como por exemplo alguém com uma personalidade alarmista, do tipo “descobri a pólvora e vocês humanos, têm que usufruir dela também!”. Alguém que crê que a imposição do medo é o melhor método educacional. Um catequista da pós-modernidade.
Também recebo sempre alguns e-mails do Dalai Lama, conhecem? É divertido ver como o Dalai Lama dispõe de tempo para enviar mensagens electrónicas para a malta entre uma e outra viagem em que trata de conseguir a libertação do Tibete. Que disposição, não? Embora ele mesmo não ameace ninguém, sempre quem as encaminha faz questão de lembrar-nos que, se não as reenviarmos para pelo menos 20 pessoas, alguma desgraça vai acontecer-nos.
    A meu ver, entretanto, o mais chato de todos é aquele e-mail, sempre em Power Point, por isso demoradíssimo de baixar para quem não tem banda larga, que faz um lindo elogio à amizade, com fotos de flores, anjos, locais bonitos, etc., só para no final dizer: “envie este e-mail para 9 de seus melhores amigos, inclusive para aquele que lho enviou, para que saiba o quão importante é ele para si”. Isso é um tremendo golpe baixo. Você levou horas para conseguir abrir, agora tem que gastar mais outro tempo enorme para enviar para 9 outras pessoas, e de volta para quem lhe mandou, só para que ele não fique tristinho.
    É nessas horas que a gente pensa: que vírus, que nada. O vírus a gente sana, gasta uns trocados, mas sana. Mas essas correntes... Eu já devo ter deixado vários amigos a pensar que não gosto deles, quando na verdade não gosto é de expedir mensagens por obrigação. Mas como é que vamos chegar para alguém e dizer: “ouve lá, pá, não sejas melga, meu, eu não te mando é nada, tenho mazé o que fazer na rede, pá, que chatice!”? Pois é, não dá e é por isso mesmo que a coisa toda se afigura como uma nova forma de terrorismo, apesar do cariz sofisticado, que divide os usuários da rede em três diferentes grupos: a) partidários do web-terrorismo do bem: aqueles que viram presa dos e-mails “amigos”; b) partidários do web-terrorismo do mal: aqueles que se aliam, geralmente com alegria, diga-se de passagem, às correntes fatalistas; ou ainda c) não-partidários: revoltados com os meios coercitivos utilizados pelos grupos acima, os não-partidários têm como característica a quebra deliberada das correntes e a igualmente intencional não-demonstração de sua amizade, por maior que seja, através de reenvios.
    Eu faço parte do grupo c; aliás, eu FUNDEI o grupo c. Qualquer corrente que vier para mim vai quebrar-se em pedacinhos na minha lixeira, já aviso. E as mensagens fofinhas... vão igualmente lá parar, embora eu lembre-me frequentemente dos meus amigos e quando recebo os tais e-mails recorde-me deles também, embora aí já com uma certa tristeza. Mas não se preocupem, minha lixeira é super confortável e está sempre limpinha.


O NOMEADOR

    Quem será que dá nome aos remédios? Certamente não é lá uma pessoa muito musical, e além disso parece seguir um código interno da Farmacologia que diria que o nome não pode deixar transparecer as propriedades do medicamento. Sabe-se ainda que alguma parte do princípio activo, para agravamento da situação, está às vezes presente na composição do nome, mas isso não melhora nada, pois os princípios activos são praticamente impronunciáveis. Aliás, deveriam existir sem precisar ser referidos.
    Estaria criada, desta forma, uma nova ordem de palavras, que não servem para ser ditas: as calavras. Existem, têm significado, mas estão confinadas ao silêncio da linguagem escrita. Um pouco segregativas, pois os analfabetos nem sequer tomariam conhecimento delas, mas, que fazer, a vida é assim, cruel. Se bem que ninguém precisa mesmo saber o que é dimetilaminofenildimetilpirazolona.
    E, voltando ao início, como é que daí alguém extrai “cibalena”? Se fosse “cefalena”, pensaríamos logo em dor de cabeça e tudo entraria nos eixos, mas esta é precisamente a clareza que o tal código visa impedir e ficou sendo “cibalena”, mesmo. Claro que a “aspirina”, que não aspira nada, tem o mesmo defeito, sendo seu pai o ácido acetilsalicílico. O “foradil” não é uma pomada tópica, como a primeira parte do nome – fora – poderia indicar, e apesar de advir do formoterol, produz na saúde o efeito contrário ao formol dos mortos.
    Um dos mais interessantes é o “voltaren”, pois suscita duas perguntas seguidas: a primeira é “quem voltaren?”, e a segunda é “quem deu-me um tiro no estômago?”.
    Porém o nomeador de remédios é tão, digamos assim, diferente, que até um medicamento chamado “exosurf” pode deixar-nos atónitos: é só para recém-nascidos, excluindo os óbvios surfistas a título de contrariedade. Já o “evanor” poderia muito bem ser nome de pessoa, pelo menos no Brasil, se já não o for.
    É claro que nós tampouco estamos a propor que os fármacos todos sigam a linha do “expectovac”, “acnase”, “digestina”, “inflanan”. Tal insinuação seria inaceitável por dois motivos: 1) todo o pessoal da farmacêutica, já habituado a seus nomes especiais, poderia sentir que a categoria foi desprestigiada ao adoptar palavras simples e reconhecíveis; 2) pedir o remédio no balcão da farmácia tornar-se-ia constrangedor com muito mais frequência do que já é, como no exemplo do “gonopac”.
    Mas, como tudo na vida, há vantagens no mundo da nomeação farmacêutica. As letras “q”, “x”, “y” e “z”, em geral quase inutilizadas enquanto iniciais no português, especialmente nas agendas telefónicas mas também nos dicionários, aqui ganham relevo e protagonizam toda uma panóplia de palavras estranhas, embora benéficas. Permitam-nos destacar os queridos “quemicetina”, que estaria melhor escrito se levasse um ponto de exclamação ao final: “quemicetina!”; “xalatan”, “xantinon” e “xeloda”, os dois primeiros comummente confundidos com charlatão e champignon, o último vencedor do Prémio Enigma da Esfinge; “yomax”, o remédio dos rappers; e finalmente “zepelan”, o nome português que já vem em francês.
    É certo que essas reflexões não ficariam completas sem a análise do remédio mais comentado dos últimos tempos: o “viagra”. Infelizmente, uma apreciação assim profunda, profunda, não será possível por tratar-se da edição dominical de um jornal familiar, mas apesar disso procedemos ao exercício de vestir a pele do nomeador farmacêutico e criar panoramas inspiradores que resultassem em um nome aceite pela comissão julgadora. Ocorreu-nos que o dito senhor (ou senhora) pensava nos efeitos da droga: é uma via agradável. Ou então uma viagem grande. Ou, dependendo do usuário, viabilizador de granel. Ou talvez ainda o nome final tenha ganho contracções: viável e garantido.
Como vêem, não é para todos a tarefa de nomear remédios. Aliás, dar nome às coisas é, de um modo geral, tão complicado que até Deus que é Deus delegou essa empreitada a Adão: “nomeia só”. Não sabemos o que Ele ficou a fazer nesse ínterim, a Bíblia não conta. Mas o facto é que Adão, como não tinha doenças, era bem mais sensato que nossos amigos acima. Ele certamente jamais decifraria o significado da palavra “viagra”. Mas nós temos ainda uma última sugestão. Sua origem verdadeira terá inspiração divina: vi a graça.



CUIDADO COM O MIL

    Vocês já devem ter reparado, assim como eu, que Luanda está disposta a crescer, ou melhor, a crescer, não, a estourar. Aliás, não sei se disposta é a palavra certa, acho que nem há palavra certa para o que está a ocorrer. Todas as regras e bons costumes relativos às dificuldades da vida numa grande metrópole estão sendo quebrados impiedosamente por esta pequena aldeia. Já não há hora para a hora do rush, por exemplo. Andar de carro na cidade é agora uma afronta, que só perde para andar a pé – altamente perigoso. Se bem que estão a consertar os passeios, mas estes estão mais dedicados aos carros do que aos peões, pois não há estacionamentos. A solução é ficar preso no trânsito por no mínimo meia a hora mais do que o que seria óbvio, o que causa atrasos ainda maiores aos já pouco pontuais kaluanda.
    Substantivos como “caos”, “inferno”, adjectivos do género “impossível”, “insolucionável”, advérbios da família do “deprimente” ou do “já era” são algumas das palavras que podem ajudar-nos na expressão dos sentimentos que assolam-nos quando a luz falta por dias seguidos, ou quando a água vai-se durante o champô no cabelo no banho.
    Mas nada, repito, nada nos tem preparado para o grande Monstro de Loch Ness, o Abominável Homem das Neves, a Mula Sem-Cabeça que é o novo Mercado Imobiliário de Luanda, aqui nesta coluna carinhosamente alcunhado de MIL.
    São muitos os detalhes que chamam a atenção e que acabarão por perfazer o perfil do MIL. Para começar, praticamente só são aceites edifícios gigantescos que tornarão lúgubre o restante da cidade, pois sua altura eliminará a presença do sol dos reles mortais que aqui em baixo residirem. Já ouvi compararem-no com Dubai, que parece ser o modelo inspirador se não arquitetónico, pelo menos ostentatónico.
Além disso, há uma evidente competição sobre quem termina primeiro sua construção. É engraçado ver que esses prédios, até prova em contrário, engolirão toda a energia e a água que já é bastante deficitária na baixa de Luanda. Mas eu, preocupada que estou com o tema, após muita reflexão gostaria de propor uma sugestão. O primeiro andar sempre deveria servir de Espaço do Bem-Estar do Cidadão, o EBEC. O EBEC será uma grande área com ar condicionado e várias casas de banho pronta para abrigar os cidadãos baixo-kaluanda na eventualidade de uma falta de água ou de luz, a acontecer com muito mais frequência que hoje, precisamente por causa das panes extras sobrevindas pelas dimensões descomunais desses imóveis em contraposição à pouca infra-estrutura da cidade. Mas com o EBEC tudo mais ou menos equilibra-se: saímos todos dos nossos locais de trabalho e vamos ao EBEC mais próximo, onde permanecemos até a volta da luz ou da água. Novas relações de amizade serão fomentadas e quem sabe até outras oportunidades de negócios, o que poderá resultar em... mais edifícios gigantes.
Porém, o mais impressionante do MIL não é o complexo de Dubai nem a concorrência para terminar e muito menos as mudanças em cima da hora causadas pela inveja na descoberta dos materiais de acabamento uns dos outros. O que mais causa espanto é o indomável avanço desses prédios para cima dos passeios. Na marginal, por exemplo, há um que, dado o seu tamanho e posicionamento, muitos, muitos metros à frente do alinhamento de todo o resto, mais parece um relógio de sol, cujo propósito seria dar a conhecer a quem vem de avião a hora certa, uma vez que sua sombra vai parar lá na Baía de Luanda.
Faz uma imensa impressão o tanto que o MIL necessita de espaço roubado ao passeio, ou seja, ao peão, para não mencionar à estética. Não acredito que em Dubai seja assim. Já não basta obrigar-nos a caminhar pelo meio da rua, por entre os carros em movimento – poucas são as construções que fazem seus estaleiros dentro dos limites do terreno, a maioria coloca-os no meio do passeio público, transformado, assim, em privado. Também os camiões que vêm descarregar material o fazem durante o dia, parando no meio da rua e contribuindo para que o trânsito seja ainda mais complicado, além de tornarem-se mais um obstáculo aos peões.
Nada disso parece ter importância para as construtoras, mas é capaz de o MIL estar a mexer até com a fauna de Luanda, já que os pássaros, habituados a traçarem uma rota de voo x, vão começar a dar cabeçadas nos edifícios ladrões-de-passeio, e em breve haverá um monte deles mortos no chão; isso pode causar um desequilíbrio ecológico grave, uma vez que eles se alimentam, dentre outras coisas, de mosquitos. O que faremos nós se o número – e as qualidades – de mosquitos aumentarem? Andaremos com fatos de astronautas na rua? Não estaria de todo mal, pois como já disse antes, daqui a pouco não mais haverá sol aqui em baixo. Mas minha preocupação neste caso é de fundo cultural: como será um fato de astronauta à besangana? Acho que não estamos preparados para isto. Dubai, tudo bem, mas Lua...
Não sei se repararam, mas Luanda está prestes a estourar...


IRRITAÇÕES

    Outra coisa absolutamente irritante é a mania de não abrir que alguns artigos têm. Envoltórios de cds e pacotes de bolachas, entre outros, estão apenas a fingir que querem ser abertos, quando na verdade dificultam a vida do consumidor à exaustão.
    Tudo ficou pior com a invenção daquele fio vermelho que supostamente deveria tornar o acto de abrir um embrulho mais fácil. O que realmente aconteceu, porém, é que aquele fiozinho é praticamente impossível de ser puxado. Às vezes, só quem tem unha consegue. Os dos cds, então, são os piores porque aquele plástico que os reveste ainda por cima gruda na mão – um “adendus irritati”, se me permitem o mau latim.
    Naturalmente que eu tenho uma teoria também para isso. Era uma vez dois irmãos gémeos. Um era extrovertido e engraçado, o outro introspectivo e tímido. Um gostava de abrir coisas, outro gostava de mantê-las fechadas. Quando ganhavam prendas de aniversário, um as abria logo e rasgava o papel de presente com gosto, o outro tinha dificuldade em desfazer-se de tão cuidada embalagem.
    Os dois miúdos cresceram e herdaram a empresa do pai, um laboratório que visava criar mercadorias para resolver todo tipo de problemas. Os acondicionamentos do material de laboratório eram deficientes, partiam-se à toa, muitas vezes invalidando o conteúdo.
    Ambos os irmãos concluíram que era preciso sanar aquela situação, pois estavam a perder muito dinheiro com os desperdícios. Mas o irmão brincalhão carecia também de férias, e calhou de ser o irmão, digamos assim, mais fechado a conceber a tal fita vermelha. Deu pulos de alegria aquando da volta do irmão ao apresentar-lha: “vês, não se abre com facilidade!”, ao que o irmão, bronzeado porém irritado, retrucava: “vês, não se abre com facilidade!”, mas aí era tarde, as patentes já haviam sido feitas, e toda uma nova concepção de empacotamento dos produtos assolou os mercados mundiais inexoravelmente.
    Foi assim que chegamos onde estamos, com pacotes quase assassinos, como é o caso dos que acomodam pequenos equipamentos electrónicos. Sem uma tesoura, é impossível abri-los, mas fica pior ainda depois de os abrirmos, com a grande probabilidade de ferimento devida à dureza exagerada daquele plástico. Talvez esse tipo de embrulho devesse vir com um kit composto de tesoura e penso. Ou, em casos mais radicais, soda cáustica e luvas especiais.
    Os electrónicos grandes ganharam um produto especial, mas nem por isso mais inofensivo: o esferovite. Como exemplo cito os aparelhos televisores, os hi-fis, os dvds ou vídeo-cassetes (lembram-se deles?). Todos vêm numa caixa de cartão que alberga em seu interior uma cápsula de esferovite, que por sua vez  protege os caros aparelhos no caso de tombos. O esferovite também nos impede, ao mesmo tempo, de efectuar dignamente uma desembalagem. Sim, porque para já é uma tarefa hercúlea retirar o aparelho de dentro da caixa de cartão sem ajuda. Isso será assim porque, sendo o irmão inventor um gémeo, pensa que todo mundo tem sempre outra pessoa à sua volta. Para não mencionar que o som do esferovite a sair sofregamente da caixa de cartão é algo no mínimo tormentoso. Inclusive, aguentar ouvi-lo sem fazer caretas é um teste de força mental utilizado pela CIA em todo aspirante a espião, não sei se vocês sabiam.
    O irmão, infelizmente dono de uma criatividade que parece não ter fim, desenvolveu também aquele artigo que mantém cabos como os de som ou computação impecavelmente enrolados. É um fecho de mão-única: é possível apertá-lo mais, mas nunca abri-lo sem fazer uso de uma já conhecida nossa, a tesoura.  
    Também na lista dos péssimos está aquele pacote de utilidade variada no ramo alimentício (bolachas, farinhas, cereais, etc.) em que basta puxar pelo meio, onde a “costura” vertical encontra-se com a horizontal na parte de cima, para que ele se abra. São muitas as vezes em que imprimimos uma força excessiva e acabamos por arrebentar o pacote fazendo chover comida no chão e sobre as pessoas ao redor. A presença de um embrulho destes é sempre um passo para o constrangimento.
    Admirável é que um dos fechos mais perfeitos é aquele arame de fechar sacos plásticos de comida, geralmente encontrado em sacos de pão, não sei se estão a ver. Ele é fácil em mão-dupla, barato e adapta-se a muitas situações. Invenção anónima.
    Será que os embrulhos da NASA também são assim difíceis? Duvido. A NASA, que de boba não tem nem um cabelinho, tem um jeito “papa” de ser. Claro. Seus invólucros foram desenvolvidos pelo outro irmão, o curtido.


QUE MICETINA!

A liberdade religiosa deve ser uma das melhores conquistas da humanidade, não tanto porque permite que todos os homens fiquem felizes, porém porque satisfaz a todos os deuses.
Ouvi nestes dias na rádio a pastora de uma igreja que não pude identificar a falar especificamente para outras mulheres. O tema era a relação sexual entre esposos. Ela trazia a público uma dúvida pela qual é questionada com certa frequência: em que medida deve a mulher estar “disponível” para seu marido?
A pergunta e a frontalidade da abordagem ao tema fizeram com que meus ouvidos fossem atraídos ao aparelho de rádio com força; não me acidentei, pois por sorte estava parada esperando – quem? – um conhecido meu, dono de restaurante – ora, nem mais.
A pastora foi peremptória e determinante no que diz respeito ao tema: a mulher deve estar disponível para o marido SEMPRE que ele assim o desejar. Outra senhora perguntou-lhe: “mas e se a mulher sabe que o marido tem uma namorada, e ele chega em casa às 2, 3 da madrugada, ainda assim deve estar disponível?” Ao que a pastora, categórica e decisivamente retrucou: “sim, a mulher deve sempre estar disponível ao seu marido e recebê-lo com alegria, porque é assim que fazem as mulheres da rua”. Recitou, então, os trechos da Bíblia que segundo sua interpretação corroboram sua teoria – algo em torno de o corpo da mulher pertencer ao marido e o corpo do marido pertencer à mulher. Para mim, esses versos mais “derroboram” a teoria da pastora, pois neste caso o homem tampouco tem o direito de ter uma namorada fora. Não sei como esse impasse se resolveria sob o ângulo da “teologia jurídica”, mas acho que algo não vai bem naquela linha de raciocínio.
Claro que também sabemos todos, eu inclusive, que em África a prática de ter uma esposa adicionando-lhe algumas namoradas fora é antiga e arraigada, e é de se imaginar que a pastora tenha usado como critério defender o mal menor – a traição – a fim de evitar a dissolução do casamento e portanto a desestabilização familiar, considerados males maiores.
Mas é na base deste mesmo tipo de pensamento que reside a proibição do uso da camisinha por parte de outras igrejas, por exemplo. Aliás no caso que estamos estudando o problema da transmissão de doenças nem sequer é mencionado, embora com a permissividade da traição provavelmente virá também a falta de cuidados – até porque o marido utilizar-se da permissividade que a religião avaliza indica que a esposa nem sequer os merece.
Acredito até numa coisa que, a meu ver, é ainda mais grave: de alguma forma aquela pastora foi convencida, quase certamente por mentores homens, de que desta maneira está a proteger as mulheres, pois ela mesma chegou a afirmar que os instintos sexuais masculinos são mais urgentes que os femininos. Talvez não conheça os casos em que as mulheres têm bastante mais libido que os homens, casos esses que nem sequer são raros. Não creio que estejam figurados na Bíblia, mas isso não dá o direito aos mentores de não pensarem na possibilidade.
Pois é por nem aventar a possibilidade que muitas situações permanecem sem solução e grupos inteiros de pessoas ficam alijados do processo religioso, a viver uma espécie de limbo devido ao anonimato ao que foram confinados. Então não haverá mulheres absolutamente pias a quem parece um desrespeito que os maridos tenham outras na rua e ainda por cima queiram ter uma vida normal com as titulares? E quanto àquelas que, conforme outra pergunta posta no programa de rádio, à noite estão cansadas da lida diária, trabalham, estudam e têm bebés pequenos, também devem estar disponíveis?
Mais uma vez, a pastora foi imperativa e basilar, até mesmo exemplificante: “sim, eu mesma tenho bebés gémeos e sempre estou disponível”.
Mas, pastora, não será que temos sido demasiadamente disponíveis? Inclusivamente essas mulheres que namoram os maridos alheios ou mesmo as prostitutas, não são elas mulheres excessivamente disponíveis? Será que é de mais disponibilidade feminina que o mundo contemporâneo está a precisar? Pelo menos permita-me perguntar: como seria um mundo em que, em vez de disponível, a mulher estivesse realmente com vontade? E o marido soubesse esperar por ela com alegria, aproveitasse-a com delicadeza? Que grande demonstração de respeito! Não seria esse o significado máximo da palavra “disponível”? Um poder dispor da vontade do outro com a respeitabilidade, a tolerância e o apreço que só uma união abençoada pode dar. E é abençoada não só porque seguiu os trâmites da tradição das bênçãos, mas porque professou os caminhos do coração humano.
Espero ver o dia em que as mulheres pensarão, falarão e agirão como mulheres, e que os homens serão complementares a elas e ambos viverão verdadeiramente dentro do mesmo mundo.




MONEYMENTOS

Há no Líbano um grande e belo monumento construído em lembrança aos horrores da guerra, relativo ao sangrento período atravessado pelo país entre 1975 e 1990. Mais de 20 canhões estão dispostos um sobre o outro no meio de uma armação de concreto, e o último deles aponta para o céu, num misto de horror e esperança.
É comum entre nós, humanos, fazermos monumentos ou celebrarmos eventos que marcam o pavor que nós, humanos, podemos perpetrar contra nós próprios. Ou, pelo menos, contra nós que são tidos como “outros”. É preciso impor um distanciamento bastante definido entre “o meu grupo” e o “grupo inimigo” para entrar em guerra, até porque em muitos casos o “grupo inimigo” era até pouco tempo um “grupo irmão”. Talvez para sobrelevar esse mesmo mecanismo da distância é que decidimos, em vez de plantar flores, criar um símbolo para a lembrança sempiterna daquilo que temos de mais desumano: a vontade de matar.
Em Israel, o memorial Yad Vashem cumpre muito bem esse papel, documentando todo o processo do holocausto no intuito de jamais permitirmos que aquilo venha a acontecer de novo. Inclusive, boa parte da liturgia judaica é baseada nesse conceito: lembrar para que não volte a suceder.
A invasão israelita ao território libanês iniciada em Julho deste ano vem a mostrar o quão afastados estamos de aprender nossas próprias lições, estejamos do lado em que estivermos, pois, para justificar a sede de sangue, há não só militares e políticos, mas também teóricos, artistas e intelectuais. Para citar apenas alguns exemplos: tanto o filósofo Martin Heidegger quanto o compositor Richard Wagner avalizavam o nazismo; o escritor e também filósofo Jean-Paul Sartre enalteceu alegremente a Revolução de Mao e aprovou Pol-Pot; o visionário escritor George Orwell acabou seduzido pela Guerra Civil Espanhola; e Pablo Neruda, gigante poeta da língua espanhola, redigiu nada menos que uma ode a Stalin. Palavras e pensamentos escritos a sangue, emoldurados com os ossos dos milhares de milhões de mortos e pendurados, espero eu, nas consciências de cada um desses homens “brilhantes”.
Mas quem sabe os tais monumentos e celebrações da seiva da vida deliberada e calculistamente derramada possam mesmo fazer-nos evoluir enquanto seres. Assim, em vez do Hino Nacional que se costuma cantar nas escolas para que depois saibamos um pouco da letra aquando dos jogos de futebol, talvez pudéssemos celebrar um canto fúnebre todas as semanas, pois sempre há alguém que foi morto em nome do injustificável, em qualquer lugar. Talvez toda a nação, qualquer nação, devesse fazer diariamente um minuto de silêncio, se não em homenagem a seus mortos, em lembrança a seus vivos hediondos.
Quando aqui cheguei, em 2003, disseram-me que a cidade do Kuíto, no Bié, havia sido de tal modo atingida pela guerra que foi tomada a decisão de mantê-la assim, intocada, como um monumento de proporções descomunais. Entretanto, quiçá, com o perdão pela falta de modéstia, emocionados com a crónica “Cuidado com O Mil”, algumas entidades do Bié parecem ter-se sentido tentadas a criar, à semelhança do Mil em Luanda, o seu próprio Mercado Imobiliário no Kuíto, ao qual poder-se-ia chamar Mik. Este facto mostra-se mais ou menos comprovado através da reportagem sobre a construção de 45 prédios de 15 andares na cidade do Kuíto, aquela que deveria ser um monumento da paz.
Pode ser que algo tenha-me escapado, sou jovem e recém-chegada, além de entusiasmada e temente a Deus, mas como concluíram que a população do Bié, maioritariamente rural, precisa viver em apartamentos, quando o que se sabe é que em Angola, não fosse pela falta de estradas, poder-se-ia percorrer quilómetros a fio sem encontrar vivalma, apenas a apreciar a beleza e fartura do chão? Também ficamos sem explicação se repararmos que a população rural que vive em Luanda, após 30 anos de ocupação, ainda hoje tem certa dificuldade em habitar nos prédios, como toda a cidade evidencia. Penso que no Bié não será diferente, até porque imagino que aqueles que têm poder de escolha preferirão ficar no seu pedaço de terra, a plantar, a colher e a relacionar-se com a natureza.
Nem sei se vale a pena mencionar o aspecto estético de 45 prédios de 15 andares assentados no meio do mato onde também co-existe uma cidade complemente devastada pela guerra; aliás, pela descrição acima não se nota tratar-se da reconstrução de uma cidade num país eminentemente rural que atravessou 40 anos de guerra, mas antes de uma instalação de arte contemporânea feita especialmente para a Trienal de Luanda, a ter início neste 30 de Setembro.
Afinal, se a moda pegar, poderemos ter 18 vezes 45 prédios de 15 andares, cada conjunto em cada capital de cada província, para que se configure uma nova Angola: aquela que nem sabe bem o que há de fazer com tanto dinheiro.







AI, SAUDADE...

Estou a fazer Portugal de lés a lés e eis que aprendo por primeira vez como é linda esta terra, que frescores revela aos que a querem íntima, sendo copiosa em rios, árvores generosas, nobres iguarias para alegrar os estômagos navegantes.
E é também boa a sua gente, de ricos sotaques, de visões de mundo peculiares tanto se estreitas quanto se vastas, e com ambas é fácil instruir-se seja em Lisboa seja em Aljustrel.
Aliás, por esta pluralidade é que tem maior significado privilegiar as cidades menores, não para desprestigiar a doce Lisboa, mas porque dela já muito sabemos e das outras muito há por se saber, fartas que são. Apesar disso, acrescento que na capital surpreendeu-me seu atento olhar artístico: em cartaz encontram-se concertos com os maiores nomes da música mundial, teatro para todos os gostos, inclusive os maus, dança, museus com exposições imensamente variadas, mostras de cinema que vão desde ao ar livre em ecrã gigante (400 metros quadrados) até cinema de arte provenientes de todos os lugares do mundo.    
E, embora muito haja para enternecer os sentidos, elejo como mais  inesquecíveis que tudo os nomes com os quais baptizaram-se as terras portuguesas, homens heróicos, belezas de outra forma efémeras, prefixos cravados à espada, todos história, honra, poesia.
Nos anos em que o idioma árabe e a língua portuguesa casaram-se, foram criadas maravilhas sonoras como Alcácer do Sal, Almodôvar, Alcobaça, Alcabideche, Alvaiázere. De notar-se é também o apreço dos portugueses pela terminação “ão” e todas as suas declinações possíveis, dentre as quais prefiro as “ã” e “ães”: Alvarães, Cantelães, Chavães, Fiães; Covilhã, Fajã, Lousã. As esdrúxulas são-me igualmente caras: Grândola, Gândaras, Zêzere, Ílhavo. E destaco ainda Viana do Castelo, Oliveira de Azeméis, Marco de Canaveses, Janeiro de Cima, Caldas da Rainha, Figueira da Foz, Paredes de Coura, Linda-a-Velha, nomes como se de versos se tratassem. Vila Franca de Xira, Estremoz, Moura, Carrazeda de Ansiães, Vreia de Bornes, Vilarinho de Samardã, Torres Vedras, ó, Portugal, através de seus nomes tocas no mais fundo meu coração e minha alma, pois de palavras também eu sou feita.
Estive por fim em Sagres – vocábulo não menos lindo –, aquela imensa língua que vem tentando, desde tempos imemoriais, lamber o Atlântico, o qual responde-lhe com seus ventos incessantes. Pois ambos, terra e oceano, foram vencidos apenas pela insuperável ambição do homem, sentimento impulsionador daqueles que partiram a vandalizar territórios alheios, feito que ficou descrito na memória das gerações como “descobrimento”. A mim, a mais estranha afecção ocorreu-me justo ali, em Sagres. Enquanto tratava de cortar o vento e chegar-me à ponta da língua, fui fisgada pela sensação da areia que escorre das mãos quanto mais a apertamos, quanto mais a tratamos de reter... Eu queria conter Sagres em algum recanto de mim, sabendo-me filha daquela língua, entendendo-me fruto daqueles ventos, mas não podia. Passeei por ali com a mesma leviandade habitual, não cabia nos meus passos nem à minha mirada, por cautelosa que fosse, apreender aquele lugar. Sua História é por demais grandiosa, ultrapassa-me incalculavelmente, sou apenas o grito de uma de suas gaivotas antes de fazer-se ao mar para sempre. Sou nada, Sagres é. Caminho como nada, e tampouco nada há para olhar, portanto o que olho o faço com irreflexão, embora do lado de dentro do meu olho – e só eu posso sabê-lo, isso não se adivinha – fervilhem emoções inefáveis, pensamentos desconexos, quase-lembranças de uma época que pertence apenas à memória da minha alma latino-americana, esta que veio com traços sanguíneos de negros do Dondo mas também, digo eu porque como tal o desejo, permeadas de amores adúlteros de proscritos pela corte talvez assim proscritos porque adúlteros enquanto corte, confiro-me certo porte nobre porque de tal forma desejo, porque tal às vezes me vejo, e recordo-me até das últimas palavras deixadas cá na terra, das apenas primeiras lágrimas deitadas pelo rosto de minha ultra-avó, que nunca deixou de chorar naquele chão alheio que teve que chamar de seu à força, que odiou com todo o seu ser porque então já não podia amar a mais ninguém, nem mesmo ao índio que a fez tão infinitamente feliz e que lhe deu todos os seus 12 filhos e com ela morreu sob a sombra da seringueira que ainda ofertou a toda a sua geração a borracha que desgraçou a vida de alguns netos e enriqueceu a outros, outros esses que migraram para a costa do mundo novo já nem tão novo, onde plantaram cana para alguns de seus descendentes morrerem de cansaço mas para outros fazerem-se senhores de engenho ricos e incólumes, outros ainda cangaceiros matadores e justiceiros, pois uns tantos padeceram de sede no sertão do nordeste brasileiro apenas para que sua morte servisse de exemplo do vazio que às vezes representa viver, até que a alguém dessa tão absurda família lhe pudesse ocorrer: quem me dera conhecer Sagres, agarrá-la e fazer-lhe um poema.
    Ai, saudade...
   

O HOMEM QUE DESMORREU

    No Brasil, nação onde acontecem as coisas mais inusitadas, até mesmo surreais, houve há poucos dias um homem que caiu de sua bicicleta e, ao chegar ao hospital, teve diagnosticado um coágulo no cérebro e foi dado como morto. Já o levavam a caminho da morgue quando tossiu, momento dramático que evidenciou que de falecido o homem não tinha nada, embora seus irmãos já lhe estivessem a preparar o velório.
    Foi uma comoção de proporções provinciais, e o facto só não mereceu destaque mais prolongado na comunicação social brasileira porque eventos insólitos como esse ocorrem aos borbotões no país, não é possível ater-se por muitos dias num só.
    Mas a família e amigos ficaram muito felizes por terem tido de volta aquele a quem já consideravam ido, até porque, acrescento eu, como depois de mortos todos viram santos, as ofensas que lhe haviam retirado por ocasião do suposto luto puderam, graças àquela inesperada ressurreição, voltar a estar coladas à sua lembrança, o que representou um alívio para muitos.
    E, por último, mas nem por isso menos importante, o hospital considerou-se responsável pelo, digamos assim, transtorno causado, e afirmou categoricamente que iria apurar o caso. Apesar disso, o médico responsável pela apressada conclusão, aliás, apressadíssima, não quis aparecer para prestar maiores esclarecimentos.
    Claro.
    Sim, estimado leitor, eu sei que o seu primeiro argumento é: como é um possível um médico enganar-se a esse ponto – confundindo vida com morte, quando nos parecem tão diferentes, inclusivamente opostas? O coágulo terá, segundo entendi, interrompido momentaneamente as funções vitais do homem. Pode ser que tenha havido alguma impaciência do corpo médico, talvez um jogo de futebol importante tenha-se imposto e os exames tornados mais rápidos e superficiais do que o costume. Os informes dos mídia não evidenciaram esses detalhes, mas pode ter acontecido. Quando o homem tossiu, todos puderam perceber que afinal ele não estava assim tão morto quanto costumam estar os finados; o homem voltou ao seu normal, foi operado e passa bem.
    Ainda por cima, passa bem!
    É claro que a notícia foi dada de maneira a que o ouvinte, apesar de perplexo, pudesse compreender o fenómeno sob a óptica da lógica. Mas eu, a título literário, prefiro não assimilá-lo assim. Para mim, o homem simplesmente desmorreu. Foi até à portaria do outro mundo, olhou bem, não gostou do que viu e voltou. Desafiou os guardiães do Portão do Além, desobedeceu as ordens da Comissão Organizadora para a Vida no Planeta Terra, conhecida no cosmos como COVIPLAT, driblou os anjos-guias mesmo estando em desvantagem no número de asas, enfim, o homem não quis ficar, bateu pé e não ficou. Deve ter roubado os formulários, certamente os trouxe consigo mas não revela onde os guardou; esse homem, aliás, não revela nada, só transmitiu que preferia mil vezes estar vivo, o que corrobora minha teoria. Levou um susto, disse para disfarçar, ao saber que esteve morto por uns instantes.
    Esse homem é pintor, não artista plástico, mas pintor de paredes. Será que o valor de seu trabalho subiu muito? Ora essa, esteve onde os homens vivos não costumam estar. Se eu fosse ele, a partir de agora enfiava a faca, como se diz no Brasil, cobraria uma fortuna.
-    Pois não, que cor vai querer, azul-céu? Pode deixar que eu preparo, mas sai um pouco mais caro que o azul normal...
Ou então, se ele quiser poderá fundar uma nova religião, no Brasil tudo é possível, especialmente fundar uma nova religião. Vai ficar bem mais rico, mas também dá muito mais trabalho.
Seja como for, é bom lembrar que ninguém sabe exactamente o que ele fez para escapar a um destino que já estava definido. Porém especula-se uma dentre duas opções: suborno ou cunha. Em qualquer dos casos, não se pode brincar com ele, não convém. De minha parte, eu aposto que aparecerá nas próximas eleições para deputado estadual – nem será preciso passar por vereador primeiro, pois Minas Gerais tem muito o que orgulhar-se desse filho que desmorreu. O partido será o PHD – Partido dos Homens de Deus. Seu mote: Ele me ouve.
Só nos resta mesmo acreditar.




















HOJE SÓ TENHO PERGUNTAS

Bem, ainda estou de viagem e, depois de Portugal, vem o Brasil, aquela terra fascinante em aconteceres fantasmagóricos e coisas inexplicáveis que convivem com os eventos mundanos como se ao mundo pertencessem, como é o caso do homem que desmorreu, ou das CPIs que terminam em nada, ou das reeleições históricas enquanto confusas. A velocidade com que as coisas ocorrem por aqui é qualquer coisa de estonteante. Vale a pena passar uma temporada no Brasil somente para conhecer o incompreensível de perto, e tentar ainda aprender com o povo brasileiro como é que se faz para manter uma certa coesão mental apesar das loucuras que são ora protagonizadas, ora observadas por cada cidadão.
Estive esses dias a passear calmamente pelas ruas de São Paulo. A cidade impressiona por qualquer índice que se pretender: poluição, riqueza, trânsito, restaurantes, mendigaria, cabeleireiros e barbearias, centros comerciais, bons preços, preços exorbitantes, construções, feiura, beleza, enfim, tudo aqui é muito. Mas, contava eu, estava a passear de carro por uma das avenidas mais chiques da cidade, de nome Brasil. É uma avenida histórica, pois possuíam ali suas casas os barões do café, e ainda hoje mantêm-se muitas com sua antiga arquitectura, casarões belos, abertos à rua, a diferir das vivendas nas vias adjacentes, estas com altos muros a esconder a opulência de quem ali, por ela mesma, aprisiona-se. Já não sendo o café há muito motivo de grandes fortunas, as casas da dita avenida transformaram-se todas em espaços comerciais, alugadas a valores impensáveis, numa manutenção contemporânea do estatuto antigo. Embora politicamente, se não incorrecto, pelo menos incómodo, é um belo espectáculo por tornar-se uma espécie de oásis na cidade em alturas que é São Paulo.
Pois bem, toda essa longa introdução para contar-lhes que, em meu passeio de carro, ao parar num sinal vi um homem, morador de rua (como agora são chamados os que outrora eram apenas mendigos), deitado em sua casa. A avenida, que possui três faixas numa direcção e mais três em outra, é dividida por um largo canteiro. A casa desse homem situava-se no canteiro. Digo que era sua casa assim tão claramente porque ele encontrava-se ali a repousar não na relva, como costuma acontecer, mas sobre umas almofadas coloridas, conforme fosse um, digamos assim, gajo muita descontraído.
À sua frente estavam outros objectos que tinham o ar de serem típicos de uma casa qualquer, inclusive uns panos pendurados sobre as plantas e sobre alguns murinhos que constituem o canteiro.
O homem estava deliciosamente sentado em seu sofá, com os braços cruzados por trás da cabeça como quem estivesse a ver televisão, que era só o que faltava àquele cenário. Já a posição dele no meio – literalmente – da Avenida Brasil era o suficiente para que a imagem fosse inesquecível. Mas é claro que nada parou por aí. Chegaram três pessoas para visitá-lo. Duas do sexo feminino e outra de sexo incompreensível. Duas sentaram-se ao murinho que servia, além de estante, como cadeirão para as visitas, pude logo reparar. A terceira parecia ser sua namorada, pois sentou-se SOBRE ele numa posição tão informal e aconchegada que deu a entender que por ali ficaria horas. Puseram-se todos  a conversar animadamente, alheios por inteiro a tudo o que havia à sua volta. Para eles, estavam entre quatro paredes; tocaram a campainha e o homem disse “entre”, pronto, entraram, sentaram, passariam horas agradáveis sem importar-se ao menos com o barulho da vizinhança na hora do rush paulista.
Enquanto essa cena inolvidável desenrolava-se, eu ia no carro a ouvir uma canção do meu próprio cd cuja letra diz “te amar é colorir o olhar/ver o vermelho no azul”. Apercebi-me na carne da existência simultânea de várias dimensões, vários planos no mesmo espaço e tempo. Também para aquele casal de namorados aquela letra fará sentido, e, a contar pela alegria do encontro, o fará no mesmo sítio interno em que para mim, dentro da minha realidade de quatro paredes não-imaginárias, faz.
Ao mesmo tempo, perguntei-me e ainda pergunto-me se, ou como os sentimentos daquele homem igualam-se aos meus, como é possível, ele mora na rua e faz de conta que não, ou nem faz, não sei. Mas naquele momento em que as dimensões sobrepuseram-se, pareceu-me que sim, ele a ama e é muito mais real que as palavras de minha canção. E mais: é ele, um morador de rua, quem me escolhe para pontuar seu amor, resplandecente e legítimo.  
Já nunca mais poderei cantar minhas próprias histórias sem lembrar-me que o encontro de todos esses planos é possível e que é preciso estar atenta, pois eles aparecem a cada tanto. Se nos permitirmos permear-nos deles seja como artistas seja como cidadãos, a arte será melhor e as condições sociais, também.
E esta foi a grande lição deste dia fantástico.
Mas pelo menos terminei aquela frase com um acerto: “Te amar é o mesmo que amar Deus/e a Música/e o Brasil.”
   
   
LILI, A SAGA

    Tenho aqui em São Paulo uma amiga que possui uma cadela, uma rafeira carinhosamente chamada Lili. Como é imaculadamente preta, ela também atende, com aquela alegria quase patética típica dos cães, à alcunha de Nêga. Aliás, não era sobre isso que eu ia falar-lhes hoje, mas não posso perder a oportunidade de questioná-los sobre se acreditam que os cães sabem mesmo seus nomes ou se apenas atendem à entoação de apelo emitida pelos humanos.
    Bom, minha opinião não conta porque eu não sou lá muito afeita aos canídeos. Afinal, a meu ver ou bem se late ou bem se baba, os dois juntos é inadmissível. Melhor ter uma árvore dentro de casa do que um cão. Até porque, ao contrário do que se prega habitualmente, nada pode ser mais irritante do que chegarmos em casa aborrecidos com algo e encontrarmos nosso cachorro sorridente, a abanar o rabinho e a babar como se nada tivesse acontecido. O cão é, antes do mais, um insolidário.
    Naturalmente, são poucos os que compartilham comigo dessa convicção, com excepção feita a alguns povos do oriente, que entretanto já exacerbam a questão ao transformar cães em iguarias gastronômicas – nem tanto ao mar, nem tanto à terra, diria eu. Enfim, minha amiga tem uma cadela chamada Lili, deixemos de divagações que a coluna não é assim tão longa, nem tampouco a paciência do leitor neste domingo. Pois eis que a Lili passeava dominicalmente num sábado com seu dono e seu doninho na rua, como de hábito, quando um carro atropelou-a. O dono ouviu apenas o terrível (e temível) som seco (e cruel) de uma bordoada impiedosa (e aterradora) seguido de um ganido agudo (e sofrido) de sua amada (e querida) cachorrinha. Ao término do qual ela saiu a correr e desapareceu, provavelmente assustada com a atrocidade dos humanos que disfarçam-se em veículos automotores de passeio.
    O dono, movido pelos sentimentos de susto, medo, piedade, apreensão, cólera e compaixão, não necessariamente nesta ordem, buscou seu próprio veículo automotor de passeio e, assim disfarçado, foi em busca da dita Lili.
Em vão. Aliás, em vãos, em becos, em ruelas, em avenidas, em praças, em parques, em jardins, em toda a vizinhança e nas vizinhanças das vizinhanças, por um, dois, três dias, uma semana inteira de mobilização familiar e amiga, sem resultado. O pequenino da família, com um ano e 9 meses, dizia pitorescamente a quem se aproximasse: Lili sumiu.
Foi encontrada duas semanas depois, em bairro próximo, porém longínquo para quem nunca tinha andado sozinha, ao lado de um bar (comprovando, inclusive, tendências nunca dantes suspeitadas), aparentemente bem de saúde. Como possui inscrição no governo provincial, os donos foram localizados e lá vai ele de novo, a correr ao encontro de sua alma-gêmea canina, quando, mais uma vez assustada com a proximidade forçada pela falta de psicologia de alguns entretanto bem intencionados humanos, Lili desandou a correr, perdendo-se novamente nesta cidade, ela sim, mundo-cão.
Como será, pergunto-me, que o dono terá dado à dona tão espantosa notícia? Encontrei, mas perdi? O facto é que Lili tinha muito mais a aprender e foi encontrada algumas outras vezes ainda, a vagar, coincidentemente ou não, jamais saberemos, pelas casas de pessoas amigas, cada vez mais próxima de seu próprio lar, quando, ao fim de três semanas, seu dono  avistou-a, abriu-lhe a porta do carro e ela entrou, como se nada, como se tudo.
Passa bem, tem apenas uma das patas um pouco ferida, embora psicologicamente deixe a desejar, mas, convenhamos, ter voltado à casa após três semanas perdida em São Paulo já é muito bom, não foi assaltada, não morreu à fome, não foi agredida na rua, não estava nem bêbada nem drogada (apesar de não podermos nos pronunciar sobre prostituição), enfim, Lili é uma vencedora e também sua família humana. Agora é a reintegração aos hábitos caseiros, à dieta alimentar balanceada, às brincadeiras familiares, aos horários de soninho nos sofás que deveriam ser destinado às pessoas, ou seja, aquele vidão que só se proporciona mesmo aos cães, até hoje não sei por quê. Inclusive eu mesma, euzinha, aconselhei minha amiga a levá-la ao médico-homeopata, vejam só, traímos facilmente nossas próprias convicções motivadas por uma estória lacrimejante. (Sim, no Brasil há homeopatas especializados em animais domésticos. Vou dar um tempo aqui nessa frase para vocês se recomporem.)
(Já posso continuar?)
(Então volto semana que vem.)
















FUMAR OU NÃO FUMAR, EIS A QUESTÃO

    Não sou lá muito idosa, mas, conhecendo o Brasil e Angola como conheço, creio poder dizer sem medo de errar que já presenciei acontecimentos bizarros. Há, certamente, quem tenha visto piores, mas, que eu já vi coisas estapafúrdias, ah, isso, já!
    O mais interessante, no entanto, é a capacidade auto-estapafurdiante das próprias coisas. Ou seja, elas tentam superar-se diante de minha visão! Não bastassem os últimos eventos brasileiros, por mim fielmente retratados aqui nesta outrora agradável porém ultimamente um tanto excêntrica coluna, tais como o do homem que desmorreu, o do morador de rua que morava no meio da Avenida Brasil e, finalmente, a saga de Lili, a rafeira sortuda, não bastasse tudo isso, em outra avenida igualmente famosa, nesta semana mesmo testemunhei uma cena inigualável.
    Uma rapariga, com cabelos devidamente oxigenados como manda a moda aqui no país (é fundamental não possuir cabelos em cor natural, nada pior, Deus nos livre), estava à paragem do autocarro quando ia a sacar de sua carteira de cigarros um dito-cujo, ao que eu, não-fumadora xiita, pensava comigo: lá vai aquela perfumar o ar da cidade. Mas eis que não era nada disso, ela retirava da carteira não um, nem dois, porém bem uns três ou quatro cigarros (de onde eu estava não divisei com exactidão). Ofereceu-os a um morador de rua – que, no entanto, diferentemente daquele supra-citado, parecia ter mesmo uma auto-estima de mendigo, deixemos dessas frescuras; mendigo, pronto. Enfim, a rapariga, esforçada em manter-se tanto na moda capilar e vestimental quanto na moda do politicamente correcto, talvez na falta de dinheiro ou de vontade de dinheiro, resolveu oferecer-lhe algo de que ele certamente gostaria, uns três ou quatro cigarrinhos que inclusive, dizem, tiram a fome, ou pelo menos impedem a cabeça de dar atenção à barriga, não sei bem.
    Se me permitem um adendo, eu diria que ela acreditou assim resolver o conflito entre os seus interiores anjinho e diabinho, este último dizendo: “ah, manda o mendigo ir pastar”, e o primeiro “nada disso, minha filha, temos que ter compaixão para com todos os seres”, e o diabinho “e por causa da compaixão tu vais dar-lhe o teu dinheiro suado?”, e o anjinho “não podemos apegar-nos às coisas materiais e terrenas, o homem tem necessidade” e foi aí, nessa palavra mágica, que ela pensou “ah, necessidade não precisa ser dinheiro, todos os mendigos fumam, vou dar-lhe cigarros e ele vai agradecer-me eternamente”.
    Percebe-se logo que a rapariga não sabe fazer silogismos e, portanto, não infere bem uma coisa de outra, o que pode ter sido a causa do resultado de sua acção. Pois bem, contente que estava com a solução para seus problemas maniqueístas, sacou dos cigarros e ofereceu-os, quase aliviada, já, ao mendigo.
    Ao que ele recusou.
    Repito: ao que ele recusou.
    Re-cu-sou. Denegou os cigarros. Refutou-os. Desprezou-os. Repeliu-os. A lista de sinónimos é enorme e sempre inacreditável. Curiosamente, ele tinha uma lata de refrigerante na mão e continuou ali, a bebê-lo, também na paragem de autocarro, embora de frente para uma lata de lixo; manteve-se ali, ao lado da rapariga, que, enjeitada também ela, pôs os cigarrinhos, agora murchinhos, murchinhos, coitados, de volta dentro da mui sem-graça carteira, uma cena de infindáveis embaraços, rematados naquele gesto lateralizante da cabeça como quem diz “ah, não quer, tudo bem”, só que, por dentro, tudo bem, nada, uma vergonha de dar dó; os processos dualistas a recomeçarem com o anjinho a esboçar aquele sorriso amarelo do Tony Blair, o diabinho fulo da vida no melhor estilo “eu disse-te”, e a rapariga a querer olhar para trás para ver se mais alguém a viu cair em desgraça por causa de um mendigo metido a engraçadinho; no entanto não disse nada, imediatamente pegou o celular e fingiu que estava numa ligação, manteve-se ali, altiva, eu tenho cigarros E celular, não sou uma qualquer, por dentro, pés de barro, mas, por fora, Roma, ou, para ser mais contemporânea, por dentro, Iraque, mas, por fora, Bush.
    Acrescento ainda que a cena toda desenrolou-se diante de mim, talvez de algum outro motorista semi-desocupado graças ao tráfego impossível dessa cidade, quase tão grave quanto o de Luanda, e de alguns milhares de almas, uma vez que a dita rua fica defronte a um imenso cemitério.
A título didáctico, oferto aos estimados leitores uma série de “morais da história” para que cada um, no recôndito de sua consciência, escolha a que melhor lhe aprouver. A História não tem moral. Não se fazem mais mendigos como antigamente. O mendigo de hoje pode ser a loira oxigenada de amanhã. Mendigo é uma questão de espírito. Fumar faz mal aos brios.


MORRE PINOCHET, AGONIZA FIDEL: O OUTONO DOS PATRIARCAS

    ...mas não por ter cabelos brancos que cabelos brancos não dizem sobre sabedoria generosidade humildade aquela compaixão que se espera nos olhos nada disso se diz de cabelos brancos de mãos trémulas de olhar perdido no espaço onde antes ficava o futuro e agora só mora o passado e é quase sempre para as partes mais roxas dele que se olha aquelas mesmo que não se vão consertar aquelas que não voltam aquelas em ponta de faca aquelas de ferro em brasa aquelas que não entendemos antes e nem compreendemos hoje não porque nos falte o tutano mas porque compreender agora é até injusto é até solidão é até escárnio é até escalpe, e quem é que quer dormir e acordar e dormir com essas imagens essas justo aquelas que mais dóem e que fazem lembrar quem fomos para quem fomos o que pior fomos e ainda pior ainda não admitirmos pois admitir é sê-lo duas vezes dez vezes mil vezes dizem alivia mas para quê ser aliviado daquilo que fomos talhados para ser aquilo que perseguimos sem saber muito bem mas inebriados por aquilo outro que tanto queríamos como se animal em selva africana fôramos, quem caça pensa querer a presa do elefante a pele do tigre a pluma do faisão mas quer mesmo é o sangue da fera é o suor no próprio corpo é o coração descompassado pelo medo mesmo de ser também o caçador a presa e são momentum da poesia mais profunda que o homem pode ter, é preciso mandar vir mais bichos importar mamíferos criar em cativeiro cuidar acariciar nutrir cheirar de perto e perceber suas doenças olhar nos olhos e saber a hora certa de sacrificar e se há outros por perto é necessário agir com a prudência devida seja ela um tiro de canhão para matar uma pombinha seja pendurar uma sucuri de meio palmo num galho por cima da cabeça do leão, ah, eu adoro a selva, venham até mim, meus filhos, mas não por eu ter já cabelos brancos que cabelos brancos não dizem sobre clareza de vontades trabalho dos rins força nas mãos para largar tudo isso pois largar é que não largar nunca os bichos não se atiram no despenhadeiro antes agarram-se muito bem agarradinhos no que for e eu aqui muitos anos de mata muitos anos ou eu ou eles e comigo é sempre eu, ah, eu adoro a selva, venham até mim, meus filhos, assim não morro nunca.
    Se bem que é bem mais difícil cuidar da moribundice alheia que da própria a nossa vamos levando pois o tempo ajuda-nos está sempre connosco e na verdade já nascemos com o espírito moribundo mas o disfarçamos atrás da volúpia do poder mandar e desmandar fazer e desfazer querer e desdenhar tudo isso para esconder as banhas as pelancas o tremor o temor não da morte mas da vida mesma que vai valendo cada vez menos são os agentes das inteligências secretas que buscam para nós nossa morte é a comunicação social a criar-nos atentados quando estávamos quietos a ver televisão é um grupo de bêbados filosofantes a simular golpes de estado quando mal acabávamos de acabar o amor com aquela tão desejada rapariga filha do nosso maior inimigo político inimigo não enquanto político mas porque é adepto de um clube de futebol ridículo, no fim vamos todos ter um fim e o dele será parecido ao meu pois cabelos brancos não dizem sobre bom gosto bom termo boa vontade e vou mais é lambuzar-me nesta rapariguinha aqui enquanto ainda posso assim ainda vejo o pai a fazer-me vénias salamaleques compridos cumprimentos e eu por dentro só gozos conheço-te a filha pariste alimentaste criaste para satisfazer-me e fizeste-o bem fizeste-o bem, tua filha me foi das últimas coisas boas, até agradeço-te.
E mesmo que tenha que passar longos momentos na cama deitado prostrado cansado enfermo o caçador não teme as mordidas de cobra se puder roçar na trunfa do leão o lenhador quer para si o cheiro da madeira tombada e por isso não foge ao machado e eu quero para mim a multidão o livro a emoção a mentira em embate mortal com a verdade quem sou eu quem eu fui eu quero a história eu sou a história não importa mais nada eu sou Alexandre espalho amor espalho guerra espalho-me no tempo e sofro condôo-me agonizo estrebucho definho até virar só cuspe de sangue e depois cuspe sem sangue mas morrer, não morro.
Quando tudo terminar quando as guerras mundiais vierem quando tudo o que existe o homem reaprender quando puder escolher entre viver e viver ainda mais eu estarei lá meu nome será numas bocas com ódio noutras com saudade jamais nenhuma mente calará meu nome.
Eu estou para além do fim.












EU RETROSPECTO, TU RETROSPECTAS...

Não sei, não, mas este me parece ter sido o ano mais ocupado dos últimos tempos. Tivemos uma avalanche de eventos loucos em todo o planeta, nem imagino como será possível prosseguir assim. Capaz que a Terra venha a desistir de continuar seu caminho normal, como quem diz “ai, preciso dar um tempo”. Se fosse eu, tiraria, sim, um descanso. Assim como está, não dá para ficar.
Claro que algumas partes do mundo são sempre mais ocupadas que outras.  O primeiro prémio do quesito ocupação vai para o Oriente Médio, naturalmente. Derrame e coma de Ariel Sharon logo após a criação de um novo partido, Kadima, põe Ehud Olmert em seu lugar; Irão mantém seu programa nuclear apesar de todas as ameaças da comunidade internacional; Hamas no poder a dar fim à hegemonia de dez anos do Fatah; tiras a satirizar o profeta Maomé na Dinamarca suscitam violentos protestos e o país vê-se forçado a fechar várias de suas embaixadas pelo mundo muçulmano; naufrágio de navio Egípcio no Mar Vermelho mata em torno de mil pessoas; morre em bombardeio o jordaniano Al Zarqawi, tido como um dos principais líderes terroristas, cuja cabeça valia 25 milhões de dólares; Israel invade o Líbano numa ofensiva desigual que dura 34 dias, deixa 1.200 libaneses mortos e expulsa mais de 1 milhão do país; o papa Bento XVI cita, em discurso feito na Baviera, trechos de um texto que liga Islamismo a violência, facto que gera muita polémica e mal-estar na comunidade muçulmana, mas não o suficiente para que ele viesse a desculpar-se – apesar disso, consegue fazer sua já marcada visita à Turquia sem nenhum percalço; Saddam Hussein é condenado à morte, com direito a escolher entre fuzilamento e forca, optando pelo primeiro; atentado ao Ministro da Indústria mata esse deputado anti-Síria de 34 anos, Pierre Gemayel; o presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, chama uma conferência internacional para estudar se o Holocausto que teve lugar na Alemanha matando 6 milhões de judeus existiu ou não; guerra civil no Iraque mata milhares e, com a insistência dos Estados Unidos em manter-se por lá, não tem fim próximo.
Outro continente que fez muito barulho, embora em direcção totalmente diferente, oposta até, se quiserem, foi a América, especialmente a Latina. A esquerda é vencedora nas eleições realizadas em nove países da região: Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Peru, Nicarágua, Equador e Venezuela. Por outro lado, Fidel Castro delega poderes a seu irmão, Raúl, por ocasião da cirurgia que teve que fazer no meio do ano e da qual até hoje não se recuperou; e morre Pinochet no Chile, sem julgamento, mas também sem honras de Estado, não sem contestações de todos os lados – simpatizantes e grupos antagonistas a ele.
 O Brasil viu-se presa indubitável do crime organizado em eventos marginais em São Paulo, primeiro, e no Rio de Janeiro, depois. O silêncio entre as duas ondas de acção, embora trouxesse alívio, não representa solução, como se vê. Não há uma política clara de segurança pública – e nada indica que venha a haver mesmo neste segundo mandato do governo Lula, quem, por sinal, afirmou que pessoas mais velhas não devem ser de direita ou de esquerda, mas de centro, a não ser que não tenham amadurecido como deveriam.
E, last but not least, em Angola falou-se dos preparativos para as eleições, muito especulou-se sobre os prováveis candidatos, houve a conferência sobre cultura e o lançamento da Trienal de Luanda, que ofereceu ao país um espólio cultural de inestimável valor, de outra forma perdido pelo olhar desatento do colonizador, olhar este herdado pelo próprio angolano mas que, como numa espiral, vem a ser modificado justamente com o advento de um acontecimento como a Trienal. Não sabíamos que poderíamos produzir, pensar e ser tanta arte, e agora vamos começar a sabê-lo. Não somos só petróleo ou diamantes, e a reconstrução nacional passa também por reconstruir a nossa auto-imagem – algo próprio à Cultura. Estamos a caminhar na direcção certa, e é ao perceber nossa contemporaneidade que vamos inserir-nos no contexto de um país com uma melhor distribuição de renda, e não apenas por produzirmos bens de consumo que valem muito dinheiro. Prova disso é nossa participação no Mundial, fruto de muita garra que foi confirmada por todos os cidadãos angolanos em todo o mundo. Também houve artistas do país que tiveram reconhecimento em prémios internacionais, na mesma cadeia de reorganização da auto-representação.    
Parece mesmo que 2006 teve muito a dizer e disse. Todos temos votos de um 2007 ainda melhor. Será melhor, muito melhor ainda, com certeza. Muitos dos desastres naturais ocorrido neste ano poderão ser evitados no ano que vem. É preciso apenas que nos tornemos mais humanos, o que quer dizer, acima de tudo, enxergar no outro sua humanidade. Não um igual, posto que somos verdadeiramente diferentes, mas um múltiplo, como é próprio ao ser humano. Múltiplo e, por isso mesmo, único. Único, portanto, fundamental. Feliz ano novo.











RETROSPECTANDO EM SONHO

Esta semana tive um sonho que misturava bem os últimos acontecimentos do mundo todo; uma espécie de sonho-retrospectiva, muito universal como é o dia 1o. de Janeiro, como são os começos de ano.
Estava eu e um conhecido meu, dono de restaurante, num acampamento de guerra americano. Não era, entretanto, no Iraque, mas, ainda mais contemporâneo, situava-se num país da América Latina, a Nicarágua do recém-eleito antigo Daniel Ortega. O acampamento era  mais parecido a uma aldeia indígena, com tendas dispostas em círculo, voltadas para um descampado no centro. As tendas, na verdade stands, eram temáticas e cada uma reportava-se a um detalhe da guerra, como sejam armamentos, uniformes, mapas, veículos, estratégias, mantimentos, e por aí vai. Nós dois passeávamos por cada uma para melhor conhecê-las, numa espécie de “Filda in battlefields”, se quiserem. Era tudo muito rico e interessante, com precisão de detalhes, o espectáculo aliado ao didactismo que distinguem as produções americanas.
A última tenda que visitamos guardava, porém, inusitada surpresa – e também a moral da estória. Sua placa de identificação dizia: SECRETARIA DA CULTURA. A leitura daquela lâmina causou-me, no sonho bem como agora, acordada, enquanto escrevo, uma potente comoção. Eu ficava extasiada – tudo bem, êxtase pode ser coisa de brasileiro com tudo o que vem dos Estados Unidos, mas enfim – com a perspicácia daquela equipa de George Bush, que buscava promover, mesmo em tempo de guerra, uma interacção entre as Culturas. Ela parecia entender que até as batalhas têm que ser travadas em ambiente de comunicação, e quanto mais plena esta, mais vitoriosa será a vitória, independente de para qual dos lados.
Questões como a transversalidade que só a Cultura traz, uma vez que é o meio que traduz as comunicações entre os povos, eram tratadas com a mesma seriedade que as estratégias ou a tecnologia utilizada para aumentar a eficácia dos combates. Fantástico.
Lá dentro encontrava-se todo o tipo de artifício típico de uma loja multicultural: os da cultura artística, como objectos de artesanato, livros, música, pintura, e também agentes da Cultura dos dois países, como professores e palestrantes, homens e mulheres conhecedores de História e de costumes, representantes do povo, pessoas.
Nenhuma decisão tomada pelas outras tendas poderia ter seu aval final sem passar antes pela deliberação da Secretaria da Cultura, que era quem melhor avaliava os prós e os contras de qualquer atitude, levando em consideração seus efeitos sobre os seres humanos em questão. Esta era a tenda mais importante de todas, a mais imponente, a mais exacta. Era a verdadeira tenda do compromisso.
Claro que todo o ano de 2006, para ficarmos só em factos recentes, foi uma comprovação de que tudo isso não passa mesmo de um sonho. Se pensarmos que Saddam Hussein foi morto no último dia do Hajj e que a morte para muitos daquele povo não é um castigo, mas uma glória vinda na forma de martírio, veremos que faltou o entendimento que a Cultura – e só ela – pode trazer às acções. Por outro lado, se lembrarmos que os justiceiros do ditador usavam as mesmas máscaras que os terroristas sequestradores, verificaremos uma incongruência que talvez explique a sede de sangue que tem tipificado a região. Bush vai mandar mais tropas para o Iraque e isso também quer dizer muito mais coisa do que o que aparenta – mas nós nunca vamos saber com exactidão, pois não temos a Secretaria da Cultura para descodificar essas intrincadas relações. Israel que o diga, ao invadir o Líbano e matar crianças cujos primos sobreviventes afiliar-se-ão assim que puderem ao Hizbollah, alvo inicial tornado em herói absoluto por ter sido a mão que socorreu os desgraçados pela invasão até hoje inexplicada, inexplicável. Imaginem, Israel e mesmo o Líbano fecham o ano a dizer: que falta nos faz Sharon. Quem poderia prever?
A Trienal de Luanda, a maior Secretaria de Cultura da História de Angola, deve ser aproveitada como tal. A começar pela democracia que a caracteriza, que pode ser atestada em todos os braços do processo: nos apoios que foi buscar, na acolhida aos muitos artistas nacionais e na procura de nomes internacionais que pudessem agregar significado à produção e ao imaginário angolanos, na abertura aos temas propostos pelos mesmos, na disposição e criação sem discriminação de espaços de exposição, na convocação para a equipe multidisciplinar de produção, na interacção com o público, na exibição múltipla nos média, na mostra dos resultados práticos à população. A Trienal acaba por qualificar-se, desta forma, como a mais importante tenda de comunicação de Angola, feito que, se não foi ainda abarcado por todos os sectores oficiais da sociedade, deveria sê-lo com urgência, para benefício dos próprios angolanos, pois são eles os meios e os fins dessa empreitada. O país já não deve admitir perder de vista que cada ano que passa sem o planeamento que só a Cultura antevê é, mais uma vez, o futuro que foi desperdiçado em nome de jogos pessoais ou displicência. É preciso, finalmente, dar lugar ao importante.





BUSH É UM ACERTO SÓ

Se tem uma coisa que eu não entendo em nós é essa mania estranha de só conseguirmos fazer leituras óbvias quando o óbvio é a única coisa que não cabe.  Vem-me à mente a escrita da esquerda para a direita de Leonardo da Vinci, que levou anos sendo considerada um código indecifrável, até que alguém pegou um espelho e desvendou um mistério nem tão grande assim.
Bush não está a errar; pelo contrário, está a acertar e muito. A essa altura, acho que nós, os seus críticos, já poderíamos sair do nosso pedestal intelectual e aceitar o fato. Pelo menos para manter a coerência interna da nossa própria leitura sobre os acontecimentos dos últimos 6 anos.
Explico: se crermos em Michael Moore, para começar, e seu Fahrenheit 9/11, e em vários dos documentários do aniversário de 5 anos do 11 de Setembro, todo o atentado ao World Trade Center terá sido uma armação do próprio governo Bush no intuito de angariar boas desculpas – e inclusive simpatia pública – para a invasão de qualquer coisa que fosse muçulmana – tomemos como exemplo o Afeganistão, que não tinha nada a ver com o barulho, mas pagou o pato mesmo assim. Logo em seguida veio o Iraque, que vai celebrar sua festinha de 4 anos agora em Março. Mentiras de um género para um país, de outro género para o outro, e estamos livres para jogar bombas e mais bombas na cabeça de quem quisermos.
Depois de ambas as invasões, até a esquerda americana (embora possa  soar-nos engraçado falar em esquerda justo naquele país, há lá pessoas que assim se consideram) encontrou justificativas nunca dantes navegadas pelo próprio governo Bush que têm sido repetidas agora por muitos ao redor do mundo: o Iraque precisava democratizar-se, e sem as bombas por sobre as crianças, a destruição do espólio da Babilónia, para sempre perdido, a destituição da dignidade das pessoas, transformadas em bandidos, saqueadores, seres movidos a ódio, e, especialmente, sem o insuflamento das rivalidades tribais, como, meu Deus, sem tudo isso seria possível implantar ali a democracia? O presidente Bush, no melhor estilo missionário, tomou para si o (pesado, diga-se de passagem) fardo de mostrar a esses países a luz – ao menos a do mais moderno armamento bélico!
É digno de nota que toda essa movimentação deve estar a afastar dos países da região a ideia de tornarem-se efectivamente súbditos da democracia, ideia à qual, aliás, já não são, por natureza, muito afeitos, o que, ao contrário do que quer a esquerda, é óptimo para o Estados Unidos, pois nem sempre é fácil dominar um país democrático.
Como modelo à frase acima convém lembrar que países democráticos e cristãos podem igualmente produzir terrorismo, haja vista Espanha e Irlanda, esta última tendo-se fatigado provavelmente por não poder competir em requinte com os irmãos muçulmanos; ficou, se quiserem, pequena, anacrónica, e retirou-se do cenário antes que fosse completamente ridicularizada.
Ultimamente, a comunicação social do mundo inteiro não se cansa de mostrar infinitos números atestando o índice de reprovação do governo Bush, sempre em ascensão. Os contrários ao regime regozijam-se com essas estatísticas, que seriam, para eles, a comprovação cabal de que a guerra foi e é um erro. No entanto, ainda assim, fazendo ouvidos moucos a tudo e a todos, as sacrossantas estatísticas aí incluídas, Bush vai enviar 20.000 novos homens ao Iraque. Pois, a meu modesto ver, essa é a prova irrefutável de que sua estratégia está a funcionar brilhantemente! E é fantástico! Ele arrisca, assim, tudo o que tem para arriscar – o apoio de seus companheiros, o prestígio que lhe traria e à sua família um final feliz e triunfante da Presidência da República do País Mais Importante do Mundo Parte II, a economia interna, as relações exteriores dos Estados Unidos com outros países do Oriente Médio e também de alguns deles entre si, a estabilidade do Partido Republicano no parlamento – enfim, não sobrará nada, nada, nada. Antes, tudo vale para continuar com a devastação do Iraque.
Na verdade, Bush está tão a vontade com seus resultados que tem ameaçado países analogamente não-democráticos, de cultura adversa à ocidental e com um grande potencial, digamos assim, raivoso, como é o caso da Síria, do Irão e da Coreia. Em outras palavras, é a expansão em larguíssima escala do jeitinho Bush de ser.
Precisamos de demonstrações maiores?
Claro, isso não lhe elimina em nada a cara de bronco, o andar de gorila e as frases de “efeito-contrário”, para não mencionar o sorriso amarelo, apesar de que o do Blair é ainda melhor. Entretanto, não podemos nos deixar levar por esses detalhes, que são, no fim das contas, somente aparências. A verdade por trás deles é que há algo de muito bem arquitectado nessas acções – tão bem, que é até difícil acreditar que Bush esteja a fazer tudo isso SÓ por causa de dinheiro. Mesmo porque, deve haver razões que a nossa razão, nunca suficientemente penetrante no que tange à política mundial, desconhece.

PS1: o leitor mais atento dirá: “bem, mas eu não acredito que o atentado de 11 de Setembro tenha sido perpetrado pelos Estados Unidos”. Minha resposta a isso é, portanto, uma pergunta: a ter em vista os remédios aplicados e seus efeitos, será que faz alguma diferença?

PS2: uma das fantasias mais engraçadas no baile da nossa ingenuidade é acreditar que Bush estaria “sem interlocutores”. Penso que sua solidão será bem mais interna que externa. Pergunto-me: que coisas este homem teria para dizer a si mesmo? Afinal, não é a quantidade de algarismos bancários que torna alguém interessante.

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